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Quando o vento me tocou

Me senti apertada, sufocada . Meu primeiro instante de existência foi traumático. Lá estava eu, unida às minhas irmãs criadas em série. Naquele momento, parecia que eu era a única incomodada com a situação de que estávamos empacotadas seguindo viagem rumo à Nova Iguaçu. Foi o que eu ouvi o rapaz falar com o motorista. Ia pra uma rede de supermercados cujo aniversário iria acontecer em outubro.

Acabei não me apresentando. Sou uma sacola verde, cem por cento reciclável. Durante o trajeto, consegui algumas informações. Como assim, eu ia carregar peso? Nós éramos tão sensíveis. Os humanos com tendência ao endividamento, adquiriam produtos, às vezes desnecessários e o mais estranho: alguns até prejudicavam a sua saúde. Aquilo não entrava na minha cabeça, como se eu tivesse uma. Meus pensamentos, simmmmmm, uma sacola pensa, ok, não guardava para mim fizeram com que eu fosse conhecida como Sacola Filósofa.

Na real, não preocupava tanto em me resgar por conta do excesso de peso, agora, corre o risco de dupla função, carregar peso e de quebra virar sacola de lixeira de cozinha, ou pior, de banheiro! Nunca pensei que o fim seria tão decadente ou malcheiroso. E vou avisando: sacola também fica ansiosa.

Já no mercado, uma mulher e seu filho de seis anos guardavam as compras utilizando as minhas irmãs. Rapidamente, o menino me pegou e fui colocada dentro de outra sacola, que levava apenas o papel toalha. Respirei aliviada. Alguns dias depois, na escuridão debaixo da pia, o menino, que se chamava João, me pegou e me amarrou a um pedaço de barbante que ele conseguiu com a avó. Naquele dia ventava um pouco e ele foi para o terraço comigo. Era tão bom! Sentia cócegas com o vento. Desde o primeiro sopro, meu coração de plástico batia mais forte. Cada ventania era um abraço. Por mim, ficaria ali, eternamente encantada com o vento e desfrutando da vista da Serra de Nova Iguaçu, um paredão verde não muito longe da casa de João.

Mas João se esquecia de mim. Fui parar na caixa de brinquedos, toda amassada. Dividindo espaço com Homem-Aranha, Pikachu e o Super Mário. Sofri muito com o bullying. Os únicos que falavam comigo eram o Thor sem uma perna e um ursinho de pelúcia que um dia já foi um chaveiro.

Aquela opressão me incomodava. O menino não me escutava e ainda por cima vivia longe das minhas irmãs. Um dia, o vento foi ficando mais forte e o menino, que estava somente com a avó, me tirou da caixa e foi escondido para o terraço. Telhas e tampas de caixa voavam naquele vendaval. Quase um amor platônico. O amor estava no ar. João foi esticando o barbante até onde pode e, num segundo de descuido, eu me soltei dos dedos dele. E então, fui levada pelo vento para um destino ignorado. O futuro incerto. O que me importava era o presente. E naquele momento eu era uma sacola feliz e livre.