Aquele dia estava nublado, corria um vento morno como a vida de Madalena. Uma tempestade parecia se armar. Madalena organizava a documentação exigida pelo defensor público para dar entrada no processo de separação litigiosa, caso fosse necessário. Ela também reunia ali, junto com os papéis, força, coragem e lembranças de maus tratos. Até que a ventania começou e espalhou pela casa todos os papéis e parte de sua coragem também.
A vida de Lena era uma brisa morna. O vento a levava e ela se deixava ir. Sem questionar, seguia o fluxo somente sonhando com dias melhores. Dias em que o vento soprasse a seu favor. Estagnada, seguia a vida. Casou-se, viveu muitas tempestades que surgiam sem grandes motivos. O clima não era bom na maior parte do tempo. Mas, vinha a calmaria com promessas de mudança que nunca aconteciam. Pensou em se separar várias vezes, chegando uma vez a arrumar as trouxas e sair. Mas não conseguiu. Recuou ao primeiro apelo romântico.
Teve um filho. Ele queria mais, mas ela segurou a onda. Conquistou seu espaço no mercado de trabalho, como autônoma, trabalhando em casa, óbvio. Porém, não prosperou como sonhara. Precisava cuidar da casa, do marido, do filho. Estudar, se aperfeiçoar, pra quê?
— Você já sabe o suficiente para trabalhar em casa. Quem vai cuidar de nosso filho? Da casa, de mim? Em casa, você pode unir o útil ao agradável; cumprir com suas obrigações de mulher casada e mãe, e ainda ganhar um dinheirinho para as suas futilidades.
E assim, ele a incentivava, sem perceber, que era ela quem sustentava a casa.
Ela amadurecia, suas forças diminuíam, a dependência emocional crescia. O casamento se arrastava…
O filho cresceu, o neto nasceu. E agora?
Dois estranhos convivem, malvivem, sobrevivem numa casa pequena, vazia de boas recordações. O filho foi embora e a casa ficou ainda menor. Antes tinha o espaço do filho, no qual se refugiava. Agora, ela busca sentido no trabalho. Ele reclama atenção.
Será que a separação ainda faz sentido? Ou eles estão fadados a aturarem-se para o resto da vida? Ele não quer a separação. Casamento é o porto seguro e é pra sempre.
Madalena vai até a janela, observa o vendaval que se aproxima. Ah, como queria se perder naquele vendaval, voar livre como a folha de um papel em branco… Ela fecha a janela que o vento havia aberto abruptamente. Olha para os papéis espalhados no chão e, decidida, abaixa-se, junta todos eles, conferindo-os um a um e os guarda numa pasta para levar ao fórum no dia seguinte.
Enquanto lá fora, o vento assobia um grito de liberdade!





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