Do auge de seus treze anos, Isaías percebia a vida adulta, representada mais diretamente pelos pais, irmãos e primos mais velhos, como algo terrivelmente injusto. Não podia ainda sair sozinho para qualquer lugar que não fosse a escola, não tinha total controle sobre o pouco dinheiro que recebia e, principalmente, se achava limitado aos muros do condomínio em que morava. Muros que lhe sorriam macabros e que lhe apertavam o pescoço com mãos de cimento.
Em um desses dias de ventania, as tampas das caixas d’água dos vizinhos cruzaram o céu de Mesquita como folhas de papel colorido. As telhas beijavam o chão vencidas pela força do vento e da tempestade que o sucedeu. Isaías olhava assustado da janela do apartamento. Dois dias sem aula recebidos de presente e, de quebra, um tédio que aborrece qualquer adolescente que se preze.
O menino saiu então pelo condomínio na companhia de três amigos. Não precisaram caminhar muito para se depararem com uma parte do muro dos fundos do bloco cinco no chão. Era possível ver uma grande abertura que dava para o terreno ao lado do conjunto habitacional. Terreno esse de grande extensão. Vazio há anos, com muitas árvores velhíssimas e até uma pequena fonte. Um pedaço de mundo livre bem no meio dos asfaltos que formavam Mesquita.
Os rapazes, convencidos por Isaías, ultrapassaram os tijolos do pedaço de muro caído e entraram a explorar o desconhecido. Conforme iam caminhando, percebiam que o espaço era ainda maior do que supunham. Mal podiam ver o chão sob o tapete de vegetação que se estendia. O
menino ouviu vozes ao longe e chamou a atenção dos amigos. Seriam trabalhadores para o início de algum anexo? Andaram por uma quantidade incontável de tempo e não viram ninguém. As vozes tornaram-se cada vez mais abafadas e distantes. Já não podiam ver o caminho de volta para o condomínio.
A noite começou a cair e com ela a angústia foi se pondo, assim como o sol sobre os peitos dos jovens rapazes. As vozes entrecortadas voltaram a soar com força. Eles tentaram gritar. Em vão. As vozes cessaram. Decidiram assim dar alguns passos ao lado, na tentativa de visualizar o muro e assim voltar para casa. Isaías então subiu em uma árvore que estava a poucos metros para tentar enxergar de cima o caminho de volta.
Surpreso e aliviado, desceu às pressas para avisar aos amigos que estavam bem adiante do lugar por onde entraram. Era possível inclusive ouvir a voz da mãe à janela. Correram assim guiados pelo menino, testificando que mal haviam saído do lugar. Os rostos vermelhos e o fôlego em falta.
Isaías nunca foi tão feliz ao voltar para casa, sendo seguido pelos grossos pingos de chuva que anunciavam a tempestade em recomeço. O tédio agora era bem-vindo. O cheiro de bolo invadia o apartamento e ao olhar a chuva caindo e ouvir o assovio do vento forte, o moço agradeceu a Deus pela liberdade.





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