velho tempestade cidade

O velho e a ventania

Era uma vez senhorzinho muito alegre que gostava muito de ajudar as pessoas. Vivia preocupado com o bem-estar de todo mundo a sua volta. Queria que todos estivessem alimentados, trabalhando e tendo onde morar. Sempre que podia, conversava com as pessoas a sua volta, falava da importância de ter uma vida digna através de emprego e educação. Embora já fosse um tanto idoso, tinha uma disposição danada para estar ciente de tudo o que se passava a sua volta e adorava o contato visual, tomar uma cachacinha de vez em quando com algum amigo de sua idade e filosofar sobre a vida, seus feitos e suas vitórias e derrotas.

Estava o senhorzinho dando o seu cochilo da tarde, na rede da varanda de sua casa, quando, eis que de repente, uma ventania o derruba da rede. Passa jogando telhados para cima, arranca raízes de árvores seculares, a porta da igreja se escancara e os santos, principalmente uma santa negra vestida de azul, parecia estar sendo estranhamente chutada para fora. Animais voam, carros entram no turbilhão formado pela ventania, um verdadeiro caos se instaura na cidade.

O idoso ficou muito assustado com aquele cataclismo repentino e esperou um tempo para ver se passava, sentando em sua varanda mesmo, pois, não havia muito o que fazer diante da força daquele vento. Aliás, o cheiro que a ventania deixava lembrava levemente enxofre.

Quando passou o vento, o idosinho, proativo como era, foi logo oferecer ajuda a seus amigos de uma vida toda. Qual não foi sua surpresa ao ver que alguns moradores, seus conterrâneos queridos, de uma hora para outra começaram a não querer mais sua ajuda! Começaram a ignorá-lo de início e, com o passar dos dias, depois daquela ventania, começaram a ficar mais ensimesmados, com umas expressões raivosas e olhar fixo, como se não tivessem mais alegria de viver.

Os que não foram atingidos pela ventania tentaram fazer de tudo para os atingidos voltarem a ter alguma comunicação inteligível com o velho senhor, mas não tiveram muito sucesso. A ventania atingiu profundamente o cérebro de muitos moradores da cidade. De repente, esses moradores começaram a escutar tudo o que uma família de forasteiros, vinda junto com o vendaval, falava. Essa família tinha um
patriarca meio fanfarrão e uns filhos esquisitos, que claramente odiava aquela gente e achava engraçado fazê-los de bobos.

Criou-se então uma divisão na cidade outrora tão unida. Os que ainda gostavam da companhia do velho senhor eram pessoas generosas e mesmo entendendo que a família de forasteiros queria provocar o caos, a desordem, ainda sim, tentava resgatar os antigos amigos. Tornou-se uma missão impossível. Ficou comprovado que no meio daquela ventania havia uma substância química que penetrava as vias aéreas das pessoas e, quem fosse suscetível aos componentes presentes no ar, tinha sua verdadeira essência ativada. Então, quem era bom, continuava bom mas, quem era ruim e fingia ser bom, não conseguia mais esconder sua verdadeira natureza. E como a família de forasteiros também tinha uma alma ruim, a parte dos moradores que foi atingida pela ventania passou a ter os mesmos comportamentos e ações dos forasteiros.

Pouco a pouco, a cidade foi ficando estranha, um fanatismo esquisito em torno das atitudes da família forasteira se instaurou e uma parte das pessoas repetiam frases que a tal família dizia. Passaram a odiar-se entre si por conta de religiões e gostos diferentes, o que muito abateu o velhinho. Mas, ele era um homem alegre e tinha uma natureza generosa. Procurou sacerdotes, sábios, conselheiros e todos trabalhavam juntos para reverter a situação da cidade.

Um dia, veio outra ventania, forte como a anterior, levantando tudo do lugar, exatamente como a outra, mas, tinha um cheiro diferente, um cheiro de limpeza, levemente perfumada. Quando acabou, parecia que as pessoas acordavam de um sono comprido. Os atingidos pela ventania anterior, olharam para a cidade e para as outras pessoas como se fosse a primeira vez. A alegria, que parecia ter ido embora, voltou e todos se abraçavam no meio da praça. Alguém, de repente, sentiu falta da família de forasteiros e foram procurá-los. Haviam sumido. Até a casa havia evaporado misteriosamente. O velhinho pediu para os amigos ajudarem a construir ali uma nova escola para as crianças, pois a antiga tinha sido parcialmente destruída pelo vento. Escola construída, inaugurada, o idoso ficou muito feliz. Depois dos festejos da inauguração foi para a casa. Deitou na rede e esperou a estrela que viria buscá-lo. Sua missão já havia sido cumprida.