Cada vez que um contador de histórias morre, ocorre uma catástrofe.
Nos tempos em que a humanidade se reunia em torno das fogueiras para ouvir histórias, o narrador tinha certeza que os acontecimentos que narrava não iriam desaparecer. Ao menos um daqueles ouvintes iria recontá-los mais tarde. Hoje, com o advento da comunicação global, cá do meu canto penso que estamos perdendo as histórias.
Pensando bem, nem me considero um legítimo contador de histórias. Estou mais para um resgatador de narrativas.
Por exemplo, entre as que trago desde a infância, há algumas que não conheço mais ninguém que as possua, pois quem me contou já se foi deste plano. Para ilustrar, vou tentar resgatar, muito resumidamente, a história dos dois irmãos judeus poloneses que fugiram da Polônia logo após a invasão da Alemanha, em 1939. Pegaram um navio na Espanha e vieram para o Brasil. Como em seu país eles tinham uma fábrica de sapatos, decidiram abrir o mesmo negócio ao chegarem ao Rio de Janeiro.
Um deles acabou se tornando funcionário de uma fábrica de graxa de sapatos aqui no Valongo, a Fábrica Enigma.
Mas aqueles tempos eram realmente complicados. O Rio era a capital do Brasil, o presidente era Getúlio Vargas e um dos homens fortes do governo era um brasileiro de origem alemã chamado Filinto Müller. Filinto comandava a polícia e, assim como outros homens poderosos do governo, não escondia suas simpatias pela Alemanha de Hitler e seus ideais. Era um período de muita repressão, racismo e perseguição a pessoas de origem judaica.
Filinto pressionou a Fábrica Enigma a mandar “presentes” para o esforço de guerra alemão. Não só a Enigma, mas estabelecimentos de renome, principalmente os de propriedade de judeus, precisavam contribuir ou sofreriam represálias.
Para fabricar a graxa, havia um ingrediente primordial: a terebentina, que precisava ser importada da Europa. Com a guerra, começou a faltar. Quando Itzac foi trabalhar na Enigma, logo começou a pesquisar um substituto e chegou a uma mistura de leite de mamão com enxofre. Mas essa mistura fazia o couro do sapato rasgar com o uso. A ideia foi abandonada e Itzac acabou por substituir por outros produtos, usados até hoje.
Quando Filinto forçou a Enigma a enviar presentes aos soldados alemães a fábrica, sob influência de Itzac, enviou a graxa com leite de mamão e enxofre. Como resultado, os soldados alemães durante a invasão da União Soviética tiveram seus calçados rasgados em meio à neve. E, segundo a história que chegou até mim, foi assim que o leite de mamão de uma graxa fabricada no Valongo se tornou uma das causas da derrota dos alemães na Rússia.
Os estivadores cariocas que moravam no Valongo se recusaram a embarcar os “presentes” para Hitler, mas isto já é assunto para uma outra história.





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