escravo albino

O escravo albino

Naquele porão escuro e abafado daquele navio tumbeiro, o odor era insuportável. Seu estômago parecia ter um buraco sem fim, após tantos vômitos.

Os restos de comidas, por vezes estragadas, eram jogados sobre suas cabeças. Alguns corpos já estavam em início de putrefação e continuavam atados às correntes que os prendiam. A morte chegava por infecção intestinal, escorbuto e outras doenças. A tristeza também matara alguns aprisionados.

Eram pessoas capturadas, oriundas de diversas partes do continente africano como Congo, Sudão, etc. e jogadas ali, todas acorrentadas entre si, naquela infinda viagem.

O enjoo que as ondas perpetuavam lhe causavam tonturas e ele não via a hora de chegar em terra firme. Doía e infeccionava as feridas em volta da sua canela, onde a argola de ferro, ligadas aos outros prisioneiros por uma longa corrente, provocava feridas, cada vez mais profundas.

Ele era de Moçambique, tinha a pele branca feito neve e grande dificuldade para enxergar. Sentia muitas dores, mas a pior delas foi a de perder a si mesmo, quando nos primeiros dias dessa árdua e sofrida viagem, viu levarem o corpo da sua mulher para ser jogado no mar, depois que ela se enforcara com uma corda esquecida no porão pelo calafate do navio. Ele até que tentou fazer a mesma coisa, porém quando começou a ficar sufocado, desistiu no primeiro engasgo e não teve coragem de ir até o fim. Agora sentia também, além da dor física, a dor da sua fraqueza e covardia e, o pior, a dor de nunca mais ver a sua amada.

Cortou o ar um estridente grito vindo do convés informando que estavam aportando. Estavam chegando ao Cais do Valongo.

Seguiram todos sob um intenso calor, atados pelas correntes, e arrastados até a região onde havia um aglomerado de comerciantes, proprietários de terras e até alguns moradores locais em busca de mão de obra escrava. Seus olhos que sempre foram embaçados, ardiam e estavam quase cegos diante do brilho daquele sol. Senhoras com suas sombrinhas coloridas cochichavam ao pé de ouvidos e as crianças, de pronto, começaram a cercá-lo devido a sua tez muito alva, completamente diferente dos outros escravizados desembarcados. Os corretores de praça e leiloeiros, que cobravam em média um conto de réis, dependendo da idade e condições do prisioneiro, ao ver sua brancura exacerbada e o considerando “uma espécie rara”, triplicaram o valor para três contos de réis, e ele acabou sendo arrebatado por um nobre latifundiário que, após o pagamento, ao retirar os grilhões que o prendiam, mostrou-lhe um chicote com um cabo de prata e pedaços de lâminas nas pontas da chibata. De imediato marcou nas suas costas com o ferrete em brasa as iniciais da fazenda na qual ele seria subjugado até os seus últimos dias.

Com a dor lancinante da queimadura, o escravo albino deu um urro alto de agonia e desabou com os joelhos no chão duro do cais, caindo sobre uns panfletos espalhados com palavras que ele a princípio não conseguiu desvendar. Depois veio a saber que eram ‘santinhos’, pois estavam acontecendo por aqueles dias as eleições para novos senhores de engenhos, capatazes e capitães do mato.

Foi aí que ele se deu conta que no futuro o chicote teria outro formato e a escravidão ainda se perpetuaria por muitos e muitos anos…