Não sei onde estou. Nem para onde estou sendo levado. Só sinto o balanço. Estou espremido entre pessoas das quais não faço ideia de quem sejam. Cada um fala sua própria língua e dialeto. O cheiro de urina e fezes já não me incomoda tanto quanto no início. Um rato passa no meu pé. Não reajo. Não como há cinco dias; a farinha acabou. A água é racionada, os barris não dão conta de todos. Ao meu lado, um homem lambe o suor do próprio braço. Todos os dias, alguém cai e não levanta mais. Ninguém sabe o motivo.
Não sei ao certo quanto tempo passou. Talvez quarenta dias. Quarenta dias que me fazem quase esquecer quem eu sou.
Tudo aconteceu durante um conflito em nossa região, quando as relações com os portugueses estavam estremecidas. O ano era 1811, segundo os portugueses. Eu acompanhava os guerreiros de meu pai quando fomos cercados por forças portuguesas vindas de Angola. O som dos nossos tambores desapareceu sob o estampido dos disparos. Algumas armas eu conhecia; outras, nunca havia visto.
Segurei minha lança com força. Ouvimos um segundo estrondo de disparos. Um companheiro ao meu lado desabou.
— Recuem, recuem! — gritei, enquanto procurava o estandarte do rei. Não o encontrei.
Tentei correr em direção à tropa que protegia a retaguarda, mas um golpe me atingiu. Não sei o que foi. Quando abri os olhos, estava cercado, com uma arma apontada para o meu peito. Não havia o que fazer.
— Sou Kiala, filho de Mavungu!
Ninguém entendeu. Tentei de novo.
— Sou o príncipe do Kongo! Filho do rei!
Repeti meu nome, o nome do meu pai, apontei para onde ficava o palácio, na esperança do gesto traduzir o que a língua não traduzia. O homem à minha frente apertou ainda mais a arma contra o meu peito.
Naquele instante, foi o primeiro momento da minha vida em que meu nome não significou nada. Senti outro golpe e, depois disso, só me lembro de acordar neste navio, confundido com um combatente qualquer.
Corre o boato de que meu pai morreu. Não sei da minha mulher, não sei das minhas filhas. Prometi a elas que voltaria, e agora carrego essa promessa da mesma forma que carrego um corpo que já está condenado.
O navio começa a desacelerar. O balanço, que já não notava, muda de ritmo. Esse pequeno detalhe me tira do palácio, de volta para o porão.
Sou arrastado por alguns minutos.
— Abra os olhos! — ouvi.
Avisto o cais.
A baía se revela diante de mim, verde e dourada sob o sol da tarde. Por um instante, esqueço as correntes nos meus pulsos. Mas logo percebo que, apesar da cidade maravilhosa, o meu futuro não tem nada de maravilhoso.
Aquela beleza não me pertence.
O instante passa.
Piso em terra firme.
Meia dúzia de homens me examina como se eu fosse uma mercadoria. As mãos que seguravam a lança com firmeza agora tremem.
Sinto o puxão nas correntes. Não me recordo a última vez que alguém me tocou sem me arrastar.
Dou uma última olhada para trás.
No cais, vejo uma placa com um nome que jamais esquecerei:
VALONGO.




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