cientista pesquisador

Demétrius

Ano 2253. Faltam onze equações. Onze, entre as duzentas e sete que separam o rascunho da certeza. Se eu as fechar, a teoria das cordas deixa de ser hipótese e a existência de universos múltiplos deixa de ser poesia de física teórica. 

Para o meu azar, não vou conseguir.

O doutor Epaminondas deu o veredito com a calma de quem já disse a mesma frase muitas vezes, como se a repetição tivesse gasto o peso das palavras até deixá-las macias:
— Carcinoma anaplásico da tireoide. Seis meses. No máximo. 

Eu ri. Não da doença, mas da ironia. A humanidade erradicou todos os cânceres, menos este.  Menos o meu. Como se o universo tivesse guardado uma última piada cruel especificamente para o homem que estava prestes a explicá-lo.

Eu precisava de um ano. Só mais um. 

Ainda há uma esperança para que o projeto continue. A tecnologia já permite transferir os dados do cérebro para um supercomputador. Você morre, mas tudo que você sabe permanece. Até o que há de mais obscuro.

Eu aceitaria. 

Se não fosse Demétrius. 

Aquele homem tinha um jeito de segurar a caneta que eu nunca consegui imitar. Uma  precisão tão milimétrica como se cada traço fosse seu último ato. Como se um erro pudesse  custar sua vida. Mas foi justamente o acerto que custou. 

Há três anos, éramos parceiros de pesquisa. Disputávamos quem chegaria primeiro à  formulação correta da teoria das cordas, tal como Einstein e David Hilbert na teoria da  relatividade. 

Demétrius venceu. Isso era inaceitável. 

Entrei em seu laboratório de madrugada, encontrei os cálculos, copiei tudo e publiquei como meu. 

Em dois dias, ele descobriu. O confronto foi inevitável:
— Seu impostor! Vou denunciá-lo ao comitê! 

Eu ainda me lembro do som firme de sua voz. Eu sabia que minha carreira seria arruinada. Não consegui responder. Só fugi. 

No dia seguinte, em um acesso de desespero, retornei ao laboratório e sabotei o sistema de suporte vital subaquático onde ele trabalhava naquela noite. Minhas mãos tremiam mais desligando os cabos do que copiando os cálculos que roubei. A quinhentos metros de  profundidade, quando o sistema começou a colapsar, ninguém podia ouvir seus pedidos de ajuda. 

Quando chegaram ao laboratório, já era tarde demais. 

Para a minha sorte, todos acreditaram que foi um acidente. 

A descoberta que estou prestes a confirmar é, na verdade, a dele. 

Com as anotações, talvez outro bom físico conseguisse desenvolver o projeto, mas então, o nome dele sobreviveria. 

O verdadeiro autor. Aquele que chegou primeiro. Quem eu roubei e matei. Eu não podia permitir que Demétrius vencesse depois de morto. 

Eu perderia todo o mérito. Não gosto de deméritos.

Não tive outra escolha. 

Cálculos, símbolos, uma vida inteira de outro homem virando fumaça na lareira. O fogo lambe a última folha e, antes que ela desapareça, ainda consigo ver, no canto inferior  direito, com aquela caligrafia pequena e inclinada que eu nunca consegui emular, Demétrius. 

O papel se desfaz. 

O nome não.