Homem lendo livro

Quatro estações

Nuvens cumulunimbus tomavam conta do céu naquela manhã de inverno. Aquele era um bom dia para morrer. Resolveu caminhar depois de colocar tudo em ordem. Documentos, medicação e o terno. Foi somente depois que se sentou no banco da praça é que Ernesto percebeu o livro que estava ali, incólume ao orvalho da madrugada: Olhai os Lírios do Campo. Ao ver o título, lembranças do passado tomavam corpo, forma. Podia sentir o aroma do café de sua falecida mãe. Feito no coador nas manhãs e nos fins de tarde.

Ao abrir o livro, encontrou uma fotografia. Parecia hipnotizado vendo a imagem de uma jovem de cabelos castanhos cacheados em uma janela. Ela olhava para cima como se procurasse algo no firmamento. Um olhar que escondia e revelava ao mesmo tempo. O coração parecia bater mais forte. Como ela parecia com Francisca, o grande amor da sua vida. Como se, num suspiro, o tempo voltasse para aqueles dias em que conversava, ele na calçada, ela na janela, ao lado da mangueira. As imagens do passado transformaram-se em um turbilhão em sua mente. A proibição em relação ao namoro do casal, por ele não ter posses, a fuga dos dois para Queimados, a noite de amor, a descoberta do esconderijo, o acidente e a notícia de que ela havia se casado. A tristeza de saber que ela nunca o havia visitado no hospital mesclou-se com a raiva por ela ter se casado com outro, sem nem ter dado um ponto final na história dos dois. Folhas caídas. Outono de uma existência.

Viveu como um nômade, um errante à procura do norte. Vida sem bússola, sem destino. Com o tempo, a vida foi se organizando. Casou-se com Carl que era enfermeira. Não tiveram filhos. Ernesto sempre quisera ter uma filha com Francisca. Que herdasse os olhos pretos, a alegria no olhar, as belas madeixas cacheadas. O nome seria Natália.

Sua atenção voltou-se para o livro. Assim que abriu, ficou paralisado com o que viu. Ele conhecia aquela letra miúda sempre presente nas cartas que ele recebia. Tum. Tum. Tum. O coração batia cada vez mais rápido. Viu escrito os três nomes, Ernesto, Francisca e Natália, ao lado de um  coração pintado com traços ao redor, como um pequeno sol. Era a assinatura do seu amor.

O mundo estava girando. Ainda tonto, tentou levantar-se do banco. Mas, antes que perdesse o equilíbrio, uma mão ágil segurou. Seus olhos se encontraram com as da jovem da foto, que viera buscar o livro da mãe, esquecido no banco. Retalhos de céu azul abriam espaço em meio às nuvens. Ernesto sorriu para a jovem. Aquele era um bom dia para viver.