A rua vazia num fim de tarde de domingo parecia combinar com o vazio que ela carregava no peito.
Avistou ao longe um sujeito que carregava algo na mão. Mediu a distância para a outra rua, caso precisasse correr…
O medo tinha fundamento: o Brasil registrou, em 2025, cerca de 1.568 feminicídios (assassinatos de mulheres motivados por violência doméstica, familiar ou menosprezo à condição de mulher) tendo a média de 4,3 mulheres mortas por dia! Isso sem contar as mortes de mulheres que não contaram como feminicídio. Já Em 2026, até junho, o Brasil registrou 741 feminicídios, correspondendo à uma média de 4,1 mulheres assassinadas por dia! *
À medida que o homem se aproximava, esse receio foi tomado pela incredulidade, horror, espanto! Havia uma ave na mão do homem e quando ele chegou mais perto, ela reconheceu um gavião, ainda jovem, inerte, com a cabeça tombada.
Levou menos de meio minuto para ela perguntar ao indivíduo o que tinha acontecido com a ave e este informar que o havia acertado, dizendo isso com a calma mais odiosa do mundo. E quando questionado o porquê, respondeu que o gavião estava matando suas galinhas.
Ali parada, frente ao sujeito, sentiu a ira tomar posse dela, ocupando todo o vazio anterior. Naquele momento, sentiu vontade de fazer com ele o que ele fez com o gavião. A revolta estava estampada na sua cara, porque ele tentou se justificar e, no fim, perguntou se ela sabia o que era aquilo. Ela nem sequer pensou antes de rugir alto:
— É CRIME AMBIENTAL, É ISSO!!!
Desnorteada, deu as costas ao criminoso. Não havia mais o que fazer! O gavião estava morto e dentro dela um ódio ardia, como um vulcão ativo, em erupção. Entretanto, havia também a consciência de que, se o denunciasse, ele saberia que havia sido ela. E num país em que as mulheres não estão protegidas nem com medida protetiva, não havia muito o que ela pudesse fazer… Não podia correr aquele risco.
Foi aí, enquanto andava e ruminava o acontecido, que ela foi tomada pela fé, elevando os braços para o alto, recorreu à Justiça Divina! Ahhh, ela tinha experiência em pedir justiça à Ele, em quem ela acreditava piamente! Rogou a Deus não uma vingança, mas a justa justiça pela vida do jovem gavião!
E para garantir, já que ventava, jogou a bomba nas mãos de Santa Bárbara e de Iansã porque, se tinha uma coisa que ela acreditava era na força da fé!
Mais leve por ter passado a bola, continuou seu caminho. No peito a dor de sentir impotente para denunciar o sujeito, na mente a imagem do gavião assassinado era a visão do inferno, no coração a confiança na eficácia da lei do retorno e do tribunal que ela havia acionado com toda a sua fé e revolta.
Dois dias depois, ela acreditou ter ouvido o som de um gavião perto de sua janela, mas depois de assoviar de volta e não obter resposta, ela achou que era apenas a sua imaginação querendo acreditar que o gavião estava vivo. Triste realidade onde se destrói nossa fauna e nossa flora.
Obs.: No Brasil, matar um gavião sem autorização ambiental pode configurar crime contra a fauna, conforma o art. 29 da Lei n°9.605/1998, com pena de detenção de 6 meses à 1 ano, além de multa.
*Fonte: Ministério da Justiça E Segurança Pública (Gov.br/mj-dados do primeiro semestre de 2026)





Deixe uma resposta