Clara tinha um jeito especial para agregar as pessoas. Após o delicioso almoço de domingo em sua casa, tivemos de sobremesa, além do pudim, uma partida do jogo Imagem & Ação. Que tarde recheada de brincadeiras e boas risadas! A turma envolvia nossos filhos e mais algumas amigas na casa dos quarenta anos mas, naquela tarde, voltávamos todas a ser crianças.
Dividimos as equipes e começou a confusão. No jogo, não podíamos falar. Era preciso fazer com que o parceiro descobrisse, através de gestos, o que estávamos tentando dizer. Parecia fácil, até chegar a nossa vez.
Uma de nós se levantava, gesticulava, apontava, pulava, fazia caretas e se desesperava enquanto a outra tentava adivinhar:
— Cachorro! — Ela balançava a cabeça.
— Gato! — Mais um não.
— Cavalo?
E quanto mais errávamos, mais exagerados ficavam os gestos. Até que alguém acertava uma coisa que parecia impossível e todos comemoravam como se tivéssemos ganhado um grande prêmio. O mais engraçado era quando a resposta parecia tão óbvia para quem fazia a mímica e completamente sem sentido para quem tentava descobrir.
Teve gente ajoelhada, pulando, imitando bicho, correndo pela sala. Teve aquelas senhoras rolando pelo chão de tanto rir. Nossos filhos olhavam para nós e riam também. Talvez por causa do jogo. Talvez por descobrirem que suas mães também sabiam ser crianças.
Não sei mais quem ganhou aquela partida. Aliás, não me lembro de quase nenhuma das palavras que tentamos adivinhar naquele dia. Mas lembro das risadas. Lembro da sala cheia. Lembro do pudim sobre a mesa, dos pratos ainda por recolher e de alguém pedindo para jogar só mais uma rodada.
Depois, o dia a dia foi nos chamando de volta à realidade. Os filhos cresceram. Vieram os compromissos, o trabalho, os problemas, as preocupações. Um domingo não dava, no outro alguém tinha alguma coisa para fazer. Os encontros começaram a rarear. Até não mais existirem. De vez em quando encontro uma delas. Outras, acompanho pelas redes sociais. Algumas quase não vejo mais.
É curioso como algumas coisas ficam guardadas em nossa memória. Esquecemos as palavras, mas não esquecemos as imagens. E então me pergunto: Aonde foi parar a nossa amizade? Talvez ela tenha ficado naquela sala. Naquela tarde de domingo.
Hoje, quando penso em todas nós, é essa a imagem que me vem à cabeça. E percebo que talvez algumas amizades não acabem. Elas apenas deixam de fazer parte dos nossos dias e passam a morar em outro lugar. A nossa ficou guardada em algum lugar dentro de mim. Como uma imagem. Sem precisar de ação.





Que coisa boa! Bela estreia. 👏🏽👏🏽👏🏽