Apenas ela queria encontrar.
Havia um amargor em sua boca, feridas que ainda sangravam e um olhar distante, perdido na profundidade dos porquês. Era ela quem precisava ver: oportunista de almas, amaurose fugaz, possuidora de destinos e sentimentos.
Preparou-se. Vestiu sua armadura antes de enfrentar o inevitável.
Não seria fácil, mas era necessário para encerrar o turbilhão devastador que lhe sugara a lucidez e lhe despedaçara o coração.
Então, mergulhou em seu gosto, em seu desgosto e em seu gozo.
Mergulhou na dor, mergulhou no amor e mergulhou na loucura.
Agora estava frente a frente com ela.
Sua algoz o rodeava com uma serenidade inquietante. Era linda, perfumada, sedutora, avassaladora… impossível de resistir.
No entanto, apresentava-se com duas faces: um sorriso e uma lágrima.
— Vieste me visitar. Por quê? — perguntou o Sorriso, enquanto a Lágrima apenas o observava em silêncio.
— Dei a você exatamente o que queria, não dei?
Esperava uma resposta, porém foi surpreendido por uma pergunta.
— Por que fez isso? Sente prazer na dor? — perguntou àquela criatura inexplicável.
— Hum… Eu proporciono prazer, vertigem e loucura com ferocidade. Não tenho culpa de seus corações serem tão frágeis, nem de se recusarem a ouvir a razão.
Agora era a Lágrima quem o encarava em um extremo vazio.
Com a voz elevada, o Sorriso rompeu o silêncio:
— Eu sou aquilo que todos desejam. Não sou o mal. Sou ímpar. Quem não souber me dominar será, inevitavelmente, dominado. Sou a tempestade que inunda o cérebro. Sou a química que explode o desejo.
— Sou o fogo que transforma um instante em eternidade. Não fui criada para permanecer. Fui feita para incendiar.
Pela primeira vez, o caçador sorriu sem ingenuidade.
— Agora eu entendo quem você é.
Deu alguns passos em sua direção, sem medo.
A criatura inclinou a cabeça, curiosa.
— Passei anos culpando você por tudo o que vivi. Chamei-a de castigo, de maldição, de veneno. Hoje percebo que você apenas faz aquilo para o que nasceu.
A criatura continuou observando, em silêncio.
— Você chega sem avisar, derruba certezas, embriaga a alma e cala a razão. Faz-nos acreditar que o impossível é apenas um detalhe. E, quando parte, deixa um silêncio que parece não ter fim.
Respirou profundamente.
— Mas a culpa nunca foi sua. Foi minha por querer morar onde você apenas passava. Confundi a tempestade com abrigo. Quis construir uma casa no meio do incêndio. Esqueci que você não foi feita para durar, mas para revelar quem realmente somos quando perdemos o controle. Foi então que, nesse mergulho em si, compreendeu, enfim, o nome daquela presença. Era a Paixão.
A Paixão inclinou a cabeça, curiosa.
A Lágrima escorreu por sua face. O Sorriso resplandeceu por um instante.
— Você me destruiu… e, paradoxalmente, me reconstruiu. Levou embora quem acreditava que amar era se perder. Em troca, devolveu outro, que aprendeu que sentir não é sinônimo de pertencer.
E continuou falando. Virou as costas, dando passos firmes.
— Vá. Continue seduzindo corações, enlouquecendo poetas, inspirando músicas e destruindo quem insiste em chamá-la de amor.
Fez uma breve pausa, sem olhar para trás.
— Eu já não a temo. Hoje sei que você é apenas a primeira página de uma história. O amor verdadeiro… esse começa quando você termina.





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