caipirinhas bêbado visão turva duplicada

Foram umas três ou quatro

O casal foi junto a um restaurante numa sexta-feira à noite. Era o reencontro da turma dele da faculdade. Já na meia idade, queria mesmo rever os amigos e se divertir. Voltaram pra casa, dormiram e o marido acorda pela manhã procurando a esposa e dizendo:
— Amor, acho que estou gripado. Estou com uma dor de cabeça…
— Gripado? Marcel, ontem você tomou caipirinha. Você está de ressaca!
— Que isso, Cláudia? Tomei só umas três ou quatro.
— Marcel, você acabou com o estoque de cachaça da casa. As duas últimas que você tomou eram de vodka.
— Ah, então é isso. Vodka me dá amnésia. A gente passou numa festa junina na volta? Lembro de uma pescaria…
— Você se animou e disse que ia pescar e mergulhou no lago de carpas do restaurante. Seus amigos te tiraram de lá com uma carpa dentro da sua calça.
— Nossa, é por isso que minha virilha tá arranhada. Mas eu lembro que eu ganhei um troféu…
— Que troféu, mas não é troféu, você levantou o balde de gelo do bar. Trouxe até pra casa.
— E a gente dançou pra comemorar e tudo. Você tava de vestido vermelho.
— Você dançou agarrado com o extintor de incêndio, Marcel. Que vergonha, meu Deus!
— Mas isso foi antes ou depois que eu li aquela poesia que tinha escrito?
— Você leu as instruções do extintor como se fosse poesia. E ainda foi aplaudido.
— Ah, então foi por isso. Tá tudo meio embaralhado. Então foi só isso?
— Só isso!? Só isso, Marcel? Sabe o Régis, aquele seu amigo solteirão?
— O que a gente achava que era gay?
—  Esse mesmo. Você disse que amava ele e tascou um beijo na boca! Que ódio de você!
— Eu achei que era você. Deve ser por isso que eu tô com esse gosto de bala de menta na boca.
— Você comeu um pote inteiro de geléia de menta, que era pra temperar a carne.
— Mas lembrei aqui que eu ganhei uma corrida.
— Corrida? Você correu contra uma criança de cinco anos e perdeu, Marcel! Cinco anos!
— Tô com a sensação que batizei alguém…
— O Régis. Você jogou caipirinha nele e disse que ele tava exorcizado. Ele saiu de lá bem chateado contigo.
— Mas pelo menos fiz sucesso cantando.
— Sucesso? Você cantou o hino nacional misturado com “Evidências”. Postou vários vídeos.
— Tenho certeza que fechei com um discurso bem bonito, tipo uma palestra motivacional.
— Palestra? Você gritava “Levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima” pra todo mundo que passava. Minha cara foi no chão.
— Lembro de me despedir em câmera lenta. Acho que fui confundido com uma celebridade.
— Celebridade? Você se apresentou como “Marcel Jackson” e saiu do restaurante fazendo moonwalk. Não volto lá nunca mais.
— Mas pelo menos eu paguei a conta?
— Eu que paguei. Você tentou passar a carteirinha da biblioteca, a carteirinha do fã clube do Roupa Nova…

Toca o telefone. Cláudia atende e passa pra Marcel:
— É o Régis. Disse que quer falar com o Marcelzinho.