O antigo prédio de três andares no centro de Nova Iguaçu era um poço de tranquilidade. Era uma construção estranha, com uma acústica terrível. Um barulho que você fizesse na porta virava uma escola de samba no corredor. Por mais que tivesse defeitos, os apartamentos tinham uma sala enorme e uma ótima localização, o que tornava o preço do aluguel acessível numa área bem valorizada. Ultimamente era um entra e sai de inquilinos. Geralmente quem alugava queria reformar e a imobiliária não dava desconto no aluguel.
Até que um dia alugaram o apartamento 203 para um pessoal diferente. Chegaram beliches, muitos colchões, cadeiras brancas de plástico e pouca mobília. Ninguém sabia o que era até começar a receber os moradores.
— É uma clínica de recuperação de drogados — disse a dona de casa do 104.
— Acho que é um abrigo de moradores de rua — disse outro vizinho que trabalha com segurança.
Só quando começou a cantoria e um fluxo constante de pessoas que entendemos que era um grupo da igreja adventista. Faziam culto com música alta e a porta aberta. Não demorou para incomodar o prédio todo e chover reclamações na imobiliária. Com razão. A resposta era a mesma para todos:
— Estamos analisando o contrato.
Uma ova! A imobiliária tinha alugado o apartamento para um CNPJ (sim, igrejas tem CNPJ), mesmo sabendo que isso era ilegal. Mas não parou por aí. O entra e sai de fiéis começava cedo e o prédio, que nunca teve porteiro, passou a ter um irmão abrindo e fechando o portão. O incômodo era tão grande e como a imobiliária era mais lerda do que o último homem que atravessou o Mar Vermelho, sem combinarem, os moradores começaram a agir. Um morador colocou uma vela vermelha e outra preta na porta dos adventistas:
— Sobrou do aniversário do meu filho, que é Flamengo — disse o tatuador do 101.
— Meu filho desenhou um pentagrama na porta deles. Viu no jogo do videogame. É um portal do inferno.
Funcionou, pois os adventistas oraram mais forte naquele dia. Agora os adventistas já passavam rápido pela gente, de cabeça baixa e falando alguma coisa que parecia uma oração acelerada. Como a imobiliária nada fazia, a criatividade dos moradores foi aumentando. Um colocou uma música do Sepultura no último volume bem durante o culto. O volume do culto foi subindo até parar de vez com um grito:
— É o fogo do inferno!
Parace que alguém sentiu. Mas os moradores, incomodados e sem dormir direito, combinaram uma surpresa. Domingo, dia do culto principal do 203, resolveram fazer um samba bem na área comum do prédio. Quando o culto começou foi que o samba esquentou. Dona Ivone Lara, Beth Carvalho, Zeca Pagodinho das antigas… Tudo com muito atabaque, batuque de mesa e tudo mais.
— É o Armagedom! Precisamos sair daqui!
E como mágica, na segunda-feira os adventistas deixaram o prédio, deixando pra trás algumas cadeiras brancas e nenhuma saudade. Não sem antes passarem por nós com gritos de “herege! escarnecedores!”
No domingo seguinte, teve samba no prédio iguaçuano:
— “Chora, não vou ligar/Chegou a hora, vais me pagar/ Pode chorar, pode chorar”.





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