bar escuro

O bar do medo

Essa era a terceira vez que Fernando pisava ali. Nas duas primeiras, estava em companhia de seu amado pai, Alberto. Lembrava-se ainda das palavras que ouviu, quando tinha apenas seis anos de idade:
— Nando, esse é um lugar muito especial, é mágico, vai te ajudar na vida. Escolhe um sanduíche e uma bebida, depois vou te levar a uma sala diferente. 

Após comer um cachorro-quente e tomar um guaraná, Fernando foi conduzido por Alberto a outro recinto do estabelecimento. Ao contrário do salão principal, muito bem iluminado, esse lugar era bem escuro, apenas uma pálida luz lilás impedia que o breu dominasse completamente o espaço. 

O menino começou a enxergar fantasmas, lobisomens, vampiros e toda sorte de monstros:
— Está vendo, filho? Nada disso existe. Mas aqui você pode vir sempre que precisar enfrentar seus piores medos. Isso permitirá que você retome sua vida com mais coragem. Todos tememos algo, mas ficar paralisado ante o que nos apavora é o que nos impede de viver. 

Sentindo o toque firme e acolhedor da mão paterna, o garoto entrou no carro e passou a perceber o mundo com outros olhos.

Na segunda vez em que lá esteve, a criança já havia dado lugar ao adolescente. O passeio aconteceu depois que Fernando confessara ao pai que estava com medo de se declarar para Joana, a amiga da escola por quem estava apaixonado:
Rapaz, lembra daqui? Há nove anos eu te trouxe pela primeira vez. Faça o lanche de sua preferência e depois já sabe para onde vamos. 

É claro que a experiência anterior havia sido inesquecível. Dessa vez não seria diferente. O jovem visualizou a bela garota reagindo das piores maneiras, rindo debochada, proferindo terríveis humilhações perante toda a turma do colégio. Aquele momento se revestia de um real aparentemente mais concreto do que qualquer vivência cotidiana, até que, mais uma vez, a sabedoria paterna o interrompeu:
Isso é o pior que poderia acontecer, filhão. As mágoas, a gente supera. Os vexames públicos, com o tempo, todos esquecem. Mas se furtar a tomar uma atitude, por outro lado, pode te impedir de viver experiências maravilhosas. É isso que você quer?

Na segunda-feira seguinte, Fernando conversou com Joana. Trocaram alguns beijos, ficaram juntos algumas vezes. Acabou não dando certo mas, certamente, teria se arrependido se não tivesse tomado a iniciativa.

Nessa terceira vez, porém, Fernando havia acabado de sair do velório de Alberto. Deixou a mulher e o filho em casa e, quando deu por si, estava naquele lugar que não visitava há vinte anos. Comprou o mesmo cachorro-quente e guaraná das outras duas vezes, muito embora nada tornasse obrigatória a repetição dos lanches. Talvez imaginasse que reproduzir o ritual lhe traria a presença do genitor falecido.

Ao entrar no recinto, começou a ver os boletos: conta de luz, água, telefone, internet, canais de streaming, IPTU, IPVA, mensalidade e material escolar do filho, cartão de crédito com as compras do Natal. Além da presença amorosa e conselheira, Alberto também ajudava Fernando quando as coisas apertavam financeiramente. O medo que sentia não era de coisas inexistentes, ou de algo que exigisse uma atitude simples. Para piorar, a voz que dissipava seus medos havia se calado para sempre. Após duas horas de permanência quase catatônica na sala secreta do Bar do Medo, o silêncio foi finalmente interrompido:
 Nando, sai logo daí. Estou fechando. Vai pagar no crédito, débito ou PIX?