Borboleta azul, ela entra pela janela semiaberta, o vento balança levemente a cortina de renda branca.
Sentado em uma cadeira de forma contrária, em frente à janela, está Fausto. Disposto sobre a cadeira, como se montasse a cavalo, ele se move paulatinamente, tocando com a testa o encosto alto da cadeira. Em alguns momentos, os movimentos se intensificam; ele parece brigar com os pensamentos, quer apagá-los da sua mente. São imagens desconexas, confusas… Nítida mesmo só a voz dela, penetrante; o olhar frio, cortante; a gargalhada em ecos que não terminavam nunca.
Do nada, ele para. Teve uma ideia brilhante, a mesma, pela décima quinta vez. Fausto levanta, caminha até o seu quarto. Em frente ao espelho, ele diz:
— Tomei uma decisão!
— Qual? — pergunta seu reflexo desanimado.
— Vou procurá-la! Vou me explicar, falar tudo… Ela vai entender.
— Será?
— Sim! Ela é boa, compreensiva.
— Você? Compreenderia?
— Não, mas… ela é bem melhor que eu! Vou contar tudo!
— Tudo? As mentiras? As enganações que penduraram o relacionamento inteiro? As traições? A bissexualidade? Família oculta? Tudo mesmo?
— Talvez não tudo! Talvez confesse só algumas coisas.
— Como o quê? As noites que a deixou sozinha para ir aos motéis com a outra? As vezes que forçou uma discussão, sem pé nem cabeça, só para criar oportunidade de estar com os outros? A dor causada de propósito, a falta de respeito, de empatia, de compaixão?
— É verdade, fui muito inconsequente, mas ela não vai querer me punir.
— Não, ela não vai puni-lo. Ela já perdeu tempo demais com você… E, depois, ter que se olhar todo dia no espelho e só ver isso já é castigo demais.
Fausto abaixou os olhos, constrangido. Parecia que até o seu reflexo era mais digno.
Voltou à cadeira, sentou-se como se montasse à cavalo, movimentos paulatinos, tocando com a testa o encosto alto da cadeira.
As suas costas, em uma mesa pequena, pilhas e mais pilhas de boletos vencidos e por vencer completava o cenário caótico e desolador. A borboleta azul faz um voo rasante sobre a cabeça de Fausto e sai pela janela.





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