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O terror na Vivenda da Luz

— Comporte-se, moleque! — esgoelou-se dona Josefa, quase num tom de xingamento no meio da rua, com as travessuras do seu filho — Se não ficar quieto, vou te internar no orfanato do seu Abel!

O menino, ao ouvir aquele nome, parou com toda a bagunça que estava fazendo; fez cara de choro ao sentir o medo que aquelas palavras representavam. Todos no bairro, adultos e crianças, tinham horror ao seu Abel e àquele lugar. 

O Orfanato Vivenda da Luz era um lugar sinistro e ameaçador. Um casarão sombrio, localizado em Morro Agudo nos anos 60, onde dezenas de crianças viviam amontoadas em seus quartos, sem nenhum cuidado com a higiene local. Seu Abel, um homem de estatura baixa, obeso e de poucos amigos, comandava o local com mão de ferro:
— Todos na fila! — gritava ele, logo de manhã, com as crianças que, com os corpos muito magros, recebiam um café ralo e frio e um pedaço de pão sem manteiga. Depois, ele obrigava todos a irem para a rua, feito uma procissão de desvalidos, para sensibilizar os vizinhos próximos a comprar os boletos mensais que ele vendia para ajudar nas despesas do orfanato.
— Como eu tenho pena… — murmurava uma senhora, penalizada com o estado de saúde das crianças.
— Como são magrinhos… — dizia outra, abrindo a bolsa para pagar o boleto daquele mês.

Seu Abel, de maneira teatral, fazia uma cara de tristeza:
— Minha luta é árdua… por isso preciso da ajuda de vocês. São muitas crianças para alimentar. 

Os boletos dos carnês iam sendo pagos. Mas, dentro do orfanato, a realidade era outra; pouco, muito pouco do que era arrecadado chegava para quem precisava:
— Não aguento de fome — lamentou uma menina.
— Fique quieta! — respondeu o inspetor — Pare de reclamar! 

Lá, um jovem interno chamado Nê Menezes morava com a mãe. Ele era ainda muito pequeno para entender os horrores do orfanato. À noite, para se proteger do frio, abraçava-se com força à mãe. Ela, murmurando baixinho, dizia:
— Um dia, se Deus quiser, vamos sair daqui — prometia ela. 

Até que, finalmente, esse dia chegou. Ela aproveitou um descuido de seu Abel e dos inspetores, que esqueceram a porta entreaberta, e fugiu dali com o filho. Com o coração disparado, saiu correndo pela rua até chegar à delegacia e relatar para os policiais todas as atrocidades que eram feitas naquele local de terror:
— As crianças passam muita fome, apanham ao reclamar e quando morrem…
— Quando morrem, o que acontece? — perguntou o policial, esperando uma resposta preocupante.
— São enterradas no quintal — disse ela. 

Na delegacia, um silêncio de chumbo tomou conta do local. 

Dias depois, o bairro acordou em pânico. Carros de polícia com a sirenes ligadas, carros de TVs e jornais sensacionalistas por todos os lados:— Será tudo verdade? — perguntavam os moradores atônitos.
— Dizem que acharam ossos…
— Meu Deus do céu!

Helicópteros sobrevoavam o bairro. Autoridades chegavam de todo o estado. Seu Abel e seus inspetores foram levados algemados e protegidos da população para evitar um linchamento. 

Muitos anos depois, Nê Menezes viu uma postagem na internet sobre o orfanato, escrita por um morador daquela época, Edu Miranda. Leu cada linha com atenção. Reconheceu a história. Reconheceu a dor.

Pegou o telefone:
— Eu sou filho daquela mulher… — disse ele — Daquela que denunciou tudo. 

Do outro lado da linha, silêncio. Depois, uma respiração profunda:
— Então a história era real… 

E assim, décadas depois, às vozes das crianças da Vivenda da Luz voltaram a ser ouvidas.  Não mais como ameaça, mas como memória. Uma triste memória que Morro Agudo nunca esquecerá.