casal romance mãos dadas

Quem vai pagar?

Jonas não fazia ideia da quantidade de novidades que iria receber na primeira semana de 2026. Ele andava cabisbaixo, parecia estar preocupado demais e não conseguia conversar com sua esposa sobre o assunto.

Ellen estava na sala, terminando de redigir um relatório semestral. Não é algo simples de se apresentar e ela precisava estar cem por cento focada. São muitos nomes, datas, horários, notas de entradas e saídas de produtos, registros encaminhados pelo RH demonstrando a rotatividade de pessoas na sede e duas filiais de um centro de atendimento, profissão do século XXI, conhecida como CALL CENTER. 

Ela olhava para ele de cima do monitor do pequeno desktop aberto na mesa de centro da sala. Jonas parecia não prestar atenção no documentário, olhava para Ellen com um foco tão penetrante que ela começou a ficar incomodada, a respiração dela se alterou e os olhos começaram a pesar, PRONTO, gatilhos começaram a disparar um atrás do outro e a voz de pensamento repetia o tempo todo:
— Tenho que começar o diálogo, eu sei que ele está preocupado e que não vai dizer nada. Será que ele quer terminar? Depois de vinte anos juntos, dois filhos criados, casados e correndo o mundo, cada um pra cada lado, cada um cuidando de suas próprias vidas. NÃÃÃÃÃOOOOOOOO PODE SER! Nós crescemos juntos. Vou ter que começar… mas tenho que agir de outra forma para evitar uma briga.

Jonas nunca foi violento com Ellen. Eles se encontraram em uma aula de sociologia na UFRJ. Ele estava estudando para tentar se tornar um paleontólogo, mas fez a inscrição no curso para ganhar pontos de frequência no primeiro semestre. Ellen estava com o sonho de se tornar uma professora, mas depois do quarto ano ela desistiu da ideia porque recebeu uma proposta do sócio do seu falecido pai e começou a trabalhar na área da supervisão da então CALL caLL Word (uma aposta gigante para tentar desenvolver a comunicação dos jovens de 2006). Ellen com vinte e um anos e ele com vinte e sete. Eles se apaixonaram no primeiro olhar e Ellen se lembrava muito bem: Ela teve que quase se jogar no colo dele no jardim atrás do prédio de engenharia porque ele não falava nada, só ficava olhando e, quando percebia que ela estava retribuindo o olhar ele ficava com o rosto corado e olhava para outro lugar ou simplesmente levantava e saída de perto. Lembrando-se dessa cena ela resolveu apostar no ínicio:
Amor, vamos fazer algo diferente hoje?
— O que você tem em mente? Sinceramente eu estou com zero vontade de sair de casa.
— Vamos ao cinema, pegar uma pipoca, ver AINDA ESTOU AQUI, a gente não faz um programa desses há algum tempo. Que tal?
— Amor, você sabe que eu gosto de ficar em casa no início do ano. Minha vida naquele estúdio é uma loucura, as pessoas estão cada vez mais loucas. Querem destaque e quase nenhuma preparação, mas também, com a velocidade das coisas acontecendo, informações nos bombardeando o tempo todo, veja aí – Jonas aponta para a tela da TV – olha aí o tipo de encenação engessada que ainda insiste em se fazer presente. Ahhhhhhhh, eu queria sumir.
Amor – a voz de Ellen parecia usar um agasalho de tão macia que estava – então, mais um motivo pra gente sair, fazer algo diferente, por aqui mesmo, a gente nem vai precisar gastar muito e se você está preocupado se vai dar certo ou não o seu projeto, eu pago.

Uma lágrima surgiu no olho de Jonas:
Oh, meu amor, o que está acontecendo?

Era tudo o que Jonas não queria ouvir, mas agora já era tarde demais. Era a hora dele falar ou continuar a sua crise de princípio de depressão atacada:
Eu não sei se vou conseguir pagar tudo. E se não der certo?! Eu nunca senti tanta pressão em minha vida igual hoje. Eu queria sumir.
— 
Não precisa se preocupar, meu bem, as nossas finanças estão em dia, mesmo você não conseguindo ser aprovado ainda restam lhe as reservas.

Um silêncio tomou conta da sala, mais uma troca de olhares e Ellen resolve quebrar o intervalo:
— Não vai me dizer que….
Sim, amor, eu apostei alto demais e agora não depende somente de mim.
— Quanto a FOX disse que iria retornar o e-mail?
— É esse o problema, eles não disseram nada.
— Então não há como projetar uma data?
— Ninguém nunca recebeu esse retorno, o que me diferenciaria?
— Não sei, amor, talvez a sua grande facilidade de ordenar. Suas direções nos curtas da faculdade sempre deixaram marcas profundas e seu roteiro é impecável.

Os olhos dele brilharam por um instante e o coração acelerou um pouco:
— Você acha mesmo ou só está me falando para me agradar, me confortar?
— E se eu te disser que é uma tentativa de fazer as duas coisas?

Os olhos de Jonas ficaram mais úmidos e ela resolveu se atirar no sofá, no colo dele. Jonas queria dizer que estava tudo bem, mas não teve coragem. Para Ellen a vida estava tudo muito bem, obrigado! Mas para ele era o inferno se projetando:
Calma, amor, vai dar tudo certo e os boletos de início de mês não nos assustam mais há algum tempo. As crianças cresceram e, mesmo se você ainda precisar, nós poderemos te ajudar. Você nos manteve por quinze anos, o que que custa?
Amor, você sabe como eu fui criado, o sistema rígido que enfrentei.
Meu bem, relaxa, tenta não pensar nisso, passou. Vamos sair, vamos nos divertir?
— Mas e os boletos do início do ano?
— Relaxa amor, tá pago! E eu vou te dar a melhor noite que você vai ter na vida. Vamos?

As lágrimas ainda estavam no rosto, mas um pequeno sorriso apareceu quando Ellen se levantou e mostrou parte do recorte do seu glúteo que estava meio a mostra…

Contas pagas e a chama acesa, TUDO PAGO e a preocupação se dissipou, ao menos até o dia seguinte.