Cleiton era o típico rapaz do século XXI, conectado em tudo e com todos. Tinha no seu extenso vocabulário alguns verbetes habituais: app, download, post, link, memes, delete, AI. Vivia plugado nas redes acompanhando todo tipo de informação, das mais relevantes às mais fúteis; de bula de remédios à receitas veganas. Com o tempo, tornou-se um conhecedor da meteorologia, das ofertas dos mercados, dos remédios pra isso e pra aquilo, e claro, do calendário completo dos campeonatos de futebol. Cleiton e seu mobile eram como irmãos siameses. A vizinhada o consultava pra todo tipo de informação e sua fama chegou longe. Foi convidado para dar entrevistas na Rádio Tropical e na TV Nova Belford. A fama aumentou e até virou meme nas redes.
Tudo ia muito bem pro rapaz. Porém, contudo, todavia, ele estava solteiro. Pasmem, caros leitores. Um típico jovem do século XXI, solteiro! Alguns amigos e uns poucos inimigos lhe perguntavam: E aí, APP-AZ, a internet não vai te arranjar uma namorada, não? Essa ele teve que engolir! Mas de boa, qual sentido fazia um cara ter resposta pra tudo e pra todos e não ter uma namorada? Afinal, era um jovem de vinte anos…
Meio contrariado, criou um perfil num site de relacionamentos e começou a busca. DATING (leia-se deitin). Esse era o mais novo verbete do glossário do Cleiton. Sem filtros, o rapaz se interessava por todos os tipos de mulheres, desde que fossem CIS. Passou um tempo avaliando os perfis e se relacionando online. Logo sentiu que o tal do touch precisava ser real e entrou na fase do dating presencial. A cada semana era um novo encontro. Não demorou a perceber que entre a tela e a mesa do bar existe um enorme abismo. Aquele papo interessante que rolava nas redes desaparecia no segundo copo de cerveja. O rapaz já estava se sentindo frustrado quando Colinha, um antigo frequentador do Bar Poetas & Afins, o chamou para um papo reto:
— Meu camarada, esquece essa parada de Casal Feliz, Tinder, etc. e tal. O que cai na rede, é peixe. Tu precisa é de uma sereia pra tua vida fazer sentido!
Cleiton bugou e precisou de um tempo para processar a informação, mas decidiu ouvir a voz da experiência. Cancelou todas as contas das redes sociais, ingressou na faculdade de Jornalismo e passou a remar nos finais de semana. Da Baixada até a praia eram alguns quilômetros. O esforço foi bem recompensado. Entre o mar e o pôr do sol, ele conheceu uma mulher de carne, ossos e celulites; dona de um sorriso estonteante e que o acompanhava em cinco copos de cerveja, entre boa conversa, risos e carinhos.
O glossário virou dicionário e a nova rede que o casal utiliza veio lá do Ceará. Primeiro presente de casamento que ganharam de Dona Zélia, e claro, sua benção de bisavó.





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