— Tenho dificuldades pra me relacionar, doutor — desabafa a mulher ao psicólogo — E, sinceramente, se não aprendi até hoje. Acho que não vai ser na terapia que vou resolver isso. Vim porque estou cansada de me sentir só.
— Que tipo de relacionamento a senhora se refere exatamente?
— Todos. Tenho dificuldades com as minhas filhas, com o marido. Este, então, nem sei se ainda temos um relacionamento. Às vezes acho que sim, às vezes não, é complicado. E tenho poucas amigas. E, inclusive, já perdi uma por ser como sou.
— E por que acha que perdeu a amiga? O que aconteceu?
Éramos três amigas de trabalho. Duas de nós nos aposentamos, a outra continuou a trabalhar. E, para não perdermos totalmente o vínculo, combinamos de nos encontrar ao menos nos aniversários de cada uma. Desta vez, era meu aniversário, combinamos de jantar na Picanha do Delei. Era folga da Marta que ainda trabalhava. Fui a primeira a chegar. Após uns quinze minutos, Marta avisou que ia se atrasar porque estava com visita. Pediu que eu chamasse a Jane para me fazer companhia enquanto ela não chegasse. Então, fiz, mas Jane disse que ia esperar por Marta, que ia de carona.
Comecei a ficar muito chateada. Por que ela tinha que esperar a Marta, já que o aniversário era meu? Senti vontade de ir embora. Depois de uns quarenta minutos esperando, resolvi jantar sozinha.
Elas chegaram juntas, sorridentes, bem arrumadas e com presentes e abraços para me oferecer uma hora de atraso:
— Como veem, já jantei — disse.
Elas, meio sem graça, se desculparam, me abraçaram e me entregaram as lembrancinhas:
— Desculpa Ju, mas a minha filha demorou pra ir embora.
— Tudo bem, Marta, você eu entendo. Só não entendi, Jane, por que você não veio antes, mesmo sabendo que a Marta ia se atrasar. Por quê?
Jane gaguejou e Marta, pra quebrar um pouco o clima ruim, pediu um vinho e brindamos, mas depois daquele dia nunca mais nos encontramos. Com a Marta ainda falo esporadicamente, mas a Jane me cancelou:
— O que a senhora espera de um relacionamento? — continuou o profissional.
— Eu espero, e às vezes até exijo, reciprocidade. E eu não sei usar meias palavras, sou sincera demais, doutor.
— Sincera demais? Não era o momento para ser sincera demais? A amizade valia a pena? Há relações que se transformam porque as pessoas mudam também, mas há outras que acabam mesmo. Pense nisso!
— Acabou a sessão de hoje. Até a próxima! Dona?
— Soledade, pode me chamar de Soledade.
— Muito prazer, Alfred.





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