Há histórias que começam no começo e outras que se iniciam no recomeço. Quando André chegou, era janeiro. Trazia ainda na boca o sabor do espumante barato e na pele, assim como na alma, os confetes dourados da festa de ano novo.
Dessa vez, contudo, essa expressão “ano novo” traria significados ainda não compreendidos. Estava ainda desconjuntado quando seu olhar contemplou aquela imagem. Seria uma miragem? Nunca tinha visto ninguém parecido antes. Foi tomado de um repentino calor, de um modo que nunca experimentara na vida. No princípio, havia um desconforto. Quando deu por si, já estava à vontade, sem camisa, como se suor e felicidade pudessem ser encontrados na mesma receita de torta salgada.
Sua anfitriã era bela, mas não de uma beleza de Photoshop ou inteligência artificial. Pelo contrário, era revestida de um encantamento natural, perfeita em suas imperfeições. Teve certeza, logo de primeira, que nela habitava um vulcão, uma força da natureza, não lhe importava que dissessem o contrário.
A paixão brotou intensa. A cada dia se sentia mais em casa. Não entendia como alguém tão especial poderia estar abandonada. Pelo que procurou saber, foram muitos a quem ela deu abrigo, afeto e que, sem demora, viraram as costas.
A ele não importava de quantos ela tinha sido e de quantos mais seria. Só queria poder aproveitar daquele convívio, daquela singularidade, daquele jeito único de fazer as coisas, com pranto e com canto, com labor e com festa.
Em pouco tempo, André não era mais um estranho por ali. Os amigos dela eram também os amigos dele. Tampouco sentia ciúmes daquela quantidade de artistas que, em manhãs de outono, reuniam-se para pintá-la. Regados a cerveja, boa música e bom papo, ele começou a frequentar os encontros de poetas, até começou a achar que alguns eram afins demais, ou seja, muito a fim mesmo de sua mais nova musa.
A generosidade daquela jovem senhora era sem fim. Mesmo nos dias quentes de inverno – seria mesmo inverno? – ela procurava aplacar a sede de todos, levando água não apenas para a vizinhança, buscava atender até mesmo os mais distantes desconhecidos.
Falando da estação inexistente, em junho ela trabalhava sem parar. Fazia suas cocadas coloridas e reunia a turma toda atrás da catedral. Foi lá que André ouviu muitos causos e descobriu o quanto a amiga já havia sido atacada em sua liberdade.
Quando chegaram as luzes do Natal e o comércio já fervilhava de gente, ela seguia se esforçando para atender a todos, ainda que com muita dificuldade. Sofria com os que não tinham nada a comemorar. Ela própria tinha muitos problemas de gente grande, mas nunca renunciou à simplicidade e espontaneidade dos pequenos.
Embora reclamassem de suas plantas e quisessem substituir tudo por enfeites feitos pelo homem, ela teimava em manter a casa verde e estender a rede para seus hóspedes sob a sombra das árvores.
Não tinha mesmo jeito, tomado de tanta admiração, era impossível não amar alguém tão especial. André não era apenas mais um convidado, sabia que agora pertencia a ela. Era amado e era amante. Era esposo, mas também era pai e era filho. Ela sussurrava seu nome em seus ouvidos: Maxambomba! Ele, convicto, agora respondia: iguaçuano.





Deixe uma resposta