A agremiação da escola de samba Unidos do Galo do Amanhã já estava esquentando os tambores para o grande desfile. Era o dia da escolha do samba-enredo para sacudir e brilhar na avenida; enfim, estava próximo o carnaval. A pequena quadra estava lotada, um aperto de sufocar, mas a alegria era contagiante nos rostos suados.
Chegava gente de todos os cantos, era uma quadra democrática, brancos, pretos, pardos, pessoas de todos os gêneros eram bem-vindas no samba.
Na rua, de longe, se via o fuzuê de gente e cores. E o cheiro forte de cerveja misturado com amônia e ureia.
Na quadra, em meio à multidão, se destacava um homem todo de branco, gravata vermelha e chapéu de malandro; era o Joca que, com seu gingado diferenciado e sorriso malicioso, rodopiava ao ritmo da bateria. Demonstrava um talento nato, pura alegria e exibição.
As passistas, com seus biquínis diminutos com brilhos e lantejoulas, que quase não havia tecido para aplicação destes ornamentos, esquentavam ainda mais o clima na quadra da escola. Tudo estava perfeito, nada poderia estragar a noite e os planos de Joca. De repente, a bateria para; no microfone que entoava uma melodia poética na voz de Tutuzinho, agora se ouve o nome de Joca, informando que Delfina, “a patroa”, está à sua procura. Eram três horas da madrugada e já estava instalada a desordem: um escorrega daqui, o outro tropeça de lá. Quando um arrastão dentro da quadra abre um espaço no centro, deixando Joca bem à mostra. Era a visão que ele nem imaginava ver, vestida e armada para a guerra, com um rolo de massa de macarrão na mão, de pijama de bolinhas, calçando uma meia preta e havaianas. Batendo o artefato na mão esquerda, com um olhar furioso, exclamou:
— Trabalhando até agora, Joca? — perguntou, sacudindo sua arma. E continuou — Era muito trabalho, seu safado, libertino. Que roupa é essa, Jocaaaaa? Eu nunca vi. E esse gingado, Jocaaaaa? Não sabia que requebrava assim! Quero ver lá em casa. É lá que o batuque vai comer.
Ele, com a cara mais lavada e sem graça, dizia:
— Calma, meu docinho, estou trabalhando, fazendo contatos, socializando minha Delfinina. E sorriu para as pessoas que estavam ao seu redor mas, para seu azar, só tinha passistas sorrindo e apoiando. Joca só viu o rolo de massa voando em sua direção e sentiu seu corpo caindo duro no chão. A bateria voltou a tocar e a confusão foi geral. Joca nunca mais trabalhou até tarde, vai sempre se lembrar do rolo de macarrão, que hoje fica próximo à porta, e jamais esquecerá daquele dia em que foi se aventurar na escola de samba Unidos do Galo do Amanhã.





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