Sabe aquela história de quando um não quer, dois não brigam? Pois é, quando um não quer é uma coisa, mas quando dois querem é outra coisa. Esse é o causo de Safadeza e Sacanagem, dois grandes vizinhos ou mais que isso.
Safadeza, a cadela da vizinha, era muito sozinha, tanto a cadela quanto a vizinha. Quando Safadeza entrava no cio, era uma agonia. Queria sair, passear, e óbvio, namorar, fazer bebê. Ficava irritada, gania, chorava. Ao mesmo tempo em que ficava ainda mais bonita com seus pelos caramelos reluzentes à luz solar que entrava pelas frestas do portão. E muito cheirosa, cuja a fragrância feromônica deixava Sacanagem, o cachorro do vizinho, do outro lado da rua, enlouquecido de amor.
Sacanagem era um pastor alemão, nunca havia namorado. Seu tutor, para seu desespero, pretendia castrá-lo, pois não tinha tempo para outros possíveis filhotes, vivia para o trabalho e estudos em home office.
Os tutores e seus pets moravam há pouco tempo no pequeno condomínio. Se viam pouco, se desejavam muito.
Toda vez, era a mesma coisa: o vizinho saía para colocar o lixo para fora e a cachorra da vizinha, digo, a tutora, parecia que fazia de propósito. Ela ia ao portão toda faceira, cheirosa, de lacinho. Saía para a academia e levava Safadeza. Sacanagem, em casa, a olhar por cima do muro. Ele fazia exercício em casa, na varanda, gostava de se exibir com seus alteres. Quem? Sacanagem? Não, seu tutor, mas só quando a vizinha voltava, ele começava. Sacanagem, o cão, preferia os aeróbicos mesmo, pulava e pulava, quando a cadela ia e quando voltava.
Até que um dia, não teve jeito, Safadeza fugiu do controle, fugiu mesmo. Ela já vinha roendo a guia, sem que sua humana percebesse, até que se soltou, correu e se escondeu. Sua tutora não sabia o que fazer, não a viu sair. O portão do condomínio estava fechado. Naquele dia, nem foi à academia, precisava de Safadeza.
Sacanagem estava acorrentado. Seu humano havia saído. Sacanagem não pode fazer nada quando viu sua amada fugir, a não ser uivar, uivar e uivar. Safadeza ouviu seu uivo e voltou sorrateiramente, mas ninguém viu. Ficou por ali atrás de um arbusto e de vez em quando lambia Sacanagem pela grade do portão. O seu vizinho chegou e Sacanagem tinha um semblante diferente, uma mistura de traquina, desconfiado e feliz. O rapaz olhou para ele, meio encafifado, soltou-o da corrente e entrou esquecendo o portão entreaberto.
Quando o rapaz voltou para fechar o portão, não encontrou Sacanagem. Lembrou da vizinha que era a única no condomínio mãe de pet e foi até ela. Bruno, um rapaz bonito e moreno como o próprio nome sugere, tocou a campainha e esperou. Carla veio ao portão toda chorosa e preocupada:
— Boa tarde, vizinha. Desculpa incomodar, mas meu cachorro escapou ainda pouco. Por acaso, ele veio para cá? Está tudo bem com a senhora?
A moça desabafou dizendo que sua cachorrinha havia fugido pela manhã e até o momento não havia voltado. Os dois se uniram e foram procurar Safadeza e Sacanagem. Andaram nas redondezas, trocaram gentilezas e confidências. Carla com Safadeza na cabeça, e Bruno só pensava em Sacanagem. Voltavam para suas casas, quando disseram a uma só voz com emoção nos olhos, e no corpo: temos que encontrá-los.
— Vamos entrar, beber um copo d’água. Vamos anunciar nas redes sociais o desaparecimento de nossos pets – disse Carla.
Mas quando olharam para o lado viram Safadeza e Sacanagem grudados como nunca antes. Eles haviam passado pela fresta do portão. O casal sorriu feliz. E nunca mais se desgrudaram.
Quem? Os cachorros? Os tutores? Ambos.





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