dominatrix

A colecionadora de homens

Dizem que vendo o meu corpo, é verdade. Mas o que nunca percebem é que, em troca do corpo, eles me dão algo muito mais precioso: entregam a alma. É nisso que eu me especializei. Cada gemido, cada fraqueza, cada palavra sussurrada contra a minha pele é a moeda que eu deposito no meu cofre secreto. Os homens chegam achando que sabem o que querem. Não sabem, mas eu sei.

Alguns querem ternura, embora peçam brutalidade com a voz embargada. Eu os puxo para a cama e deixo tocarem meu corpo e, ao invés de golpes, ofereço silêncio. Eles choram, o gosto das lágrimas quentes e o rosto sobre meu seio confirmam que comprei a sua solidão. Guardo-as comigo como quem guarda uma joia rara.

Outros chegam apressados e querem dominar, acham que são os donos da cena. Mas basta eu rir baixo, quando suas mãos apertam meu pescoço, para que a máscara se quebre. Ninguém suporta o riso no meio da fantasia. Desabam, pedem que eu os xingue, que os reduzam a nada. Eu obedeço e ao fim, quando soluçam de joelhos, percebo que comprei seu medo. O medo deles de serem apenas homens comuns.

É assim que faço: cada cliente deixa comigo muito mais que dinheiro. Deixam um segredo, um trauma, uma obsessão escondida. Os corpos passam, mas o que permanece é a essência que extraio deles e é nisso que encontro meu gozo. Não no orgasmo, que é só um lampejo, mas no saber que, ao saírem do meu quarto, eles estão mais vazios, e eu, com o meu cofre secreto de sentimentos mais cheio.

E então ele apareceu, diferente de todos. Entrou sem pressa, sem hesitação, sem máscara aparente. Sentou-se diante de mim e ficou em silêncio. Meus truques, o olhar demorado, o toque calculado, o jogo de palavras, não o abalavam. Era como se estivesse blindado, protegido por uma muralha invisível. Eu soube, naquele instante, que precisava dele. Não do corpo, mas do que havia atrás daquele silêncio. Era uma alma inteira, intacta, e eu queria rasgá-la.

Me aproximei, encostei minha boca em sua orelha e sussurrei o que nunca digo a ninguém:
— Eu vou te dar prazer, mas vou roubar o que você esconde na alma.

Ele riu. Um riso curto, como quem não acredita. E então me beijou, profundamente, como se aceitasse o desafio. Naquele momento, compreendi: seria o jogo mais perigoso da minha coleção. Porque, talvez, ao tentar comprar a alma dele, eu estivesse vendendo a minha.

Nos dias que seguiram, ele voltou. Sempre à mesma hora, sempre com o mesmo silêncio desarmante. Não pedia nada, não comprava pacotes de tempo ou de luxúria. Apenas se sentava, me olhava e esperava.  Eu odiava isso. Odiava mais ainda porque, pela primeira vez, não sabia o que extrair. Não havia medo em seus olhos, não havia solidão a ser lambida, nem vaidade para eu despedaçar. Ele era inteiro. Comecei a jogar mais alto: ofereci dor, carinho, humilhação, ternura, até o riso, a arma secreta que desmonta qualquer fantasia. Nada. Ele permanecia ali, como se já tivesse me lido inteira. Foi quando, exausta de todos os truques, sentei-me nua diante dele e perguntei:
— O que você quer de mim?

Ele se inclinou, tocou meu rosto com uma delicadeza que eu não conhecia e respondeu baixo:
— Eu não quero nada. Quero apenas ver quem você é quando não está comprando ninguém.

A frase me atravessou. Nunca pensei que alguém pudesse desejar isso de mim, não meu corpo, não meu poder, mas a mulher por trás da colecionadora. Naquela noite, não houve sexo. Ficamos deitados, pele contra pele, respirando. Eu adormeci em seus braços, como se fosse eu a cliente e não o contrário. Senti-me vulnerável, quase exposta. E foi nesse instante que percebi: Pela primeira vez, não comprei nada. Pelo contrário, talvez tivesse vendido algo que jurei guardar para sempre.

No dia seguinte, ele não voltou. Passei noites à espera, os outros vieram, mas havia a marca invisível de sua ausência. Fiquei tentando decidir se havia vencido ou perdido aquele jogo. Até hoje, não sei. Mas às vezes, quando fecho os olhos, sinto sua mão no meu rosto e me pergunto se não foi a minha alma que ele levou.