marquês de sade

Entre quatro paredes

Sempre acreditei que palavras eram mais perigosas que toques, até o dia em que alguém me tocou como se estivesse lendo cada linha da minha pele.

Sou professora de literatura erótica. Parece ousado, mas nunca passou de um papel acadêmico. Ensino sobre autores consagrados no tema, como Sade, Bataille, Anaïs Nin, dentre outros. Falo sobre o desejo alheio, mas sempre com o véu da crítica e da análise. Nunca o meu. Nunca eu.

Uma noite folheava distraída meu exemplar gasto de Sade – A Filosofia na Alcova. Não buscava nada em particular, mas como se tivesse sido deixada ali para mim, uma sentença me atravessou: “Abandonemo-nos, pois, sem restrições, às delícias que a natureza nos inspira; só elas podem conduzir-nos à felicidade. Não existe outro objetivo em nossa existência além do prazer.”

Fiquei imóvel. Li uma vez, duas, três vezes. As letras pareciam pulsar como se estivessem gravadas na minha pele, não no papel.

A ideia de que toda a minha vida, desde a rotina acadêmica, os gestos elegantes, o divórcio arrastado, as noites solitárias, não passava de uma contenção absurda, caiu sobre mim com a força de uma revelação.  E se Sade estivesse certo?  E se o único erro fosse ter recusado o que me era mais natural: o prazer?

Senti vergonha do meu corpo ansioso, das fantasias que sempre escondi até de mim mesma. Mas ao mesmo tempo, meu pensamento questionava: E se a felicidade estivesse naquilo que sempre temi?

Fechei o livro devagar, como quem guarda um segredo perigoso. Mas já era tarde. A frase estava dentro de mim, repetindo-se como um eco. Subitamente, me lembrei de um cartão que alguém, em algum momento, havia me dado na universidade. Fui até a gaveta e o encontrei. Era simples, preto, letras douradas: “Clube G. — Toda fantasia merece ser contada. Ou, quem sabe, vivida.”

A princípio, ri. Parecia convite para um cabaré de outra época. Mas o silêncio do meu apartamento ecoava fundo demais e as paredes me observavam com uma paciência cruel. Guardei o cartão, mas dias depois, cedi. O endereço levava a uma porta discreta, quase invisível, num prédio antigo do centro da cidade. Por dentro, o mundo se transformava: cortinas de veludo, taças de vinho, perfumes doces e amadeirados. Descobri, trêmula, que ali escritores e leitores davam vida às próprias fantasias.

Fiquei apenas espectadora, mas algo despertou em mim. Voltei para casa com a mente em brasa. Escrevi até o amanhecer. Não teoria, não crítica, mas carne, fantasia. Meu corpo derramado em palavras.

Na semana seguinte, com a coragem que eu não sabia que tinha, li minha fantasia, em voz alta:
—  Ele me despiu sem pressa, como quem desfolha um livro antigo. Cada botão era uma página, cada dobra de tecido, um segredo revelado.

As palavras saíam da minha boca com tremor e excitação. Quando terminei, um aplauso contido, um olhar, um homem sentado na penumbra, sorriu como se conhecesse o que eu jamais escrevera.

Na terceira visita, aquele homem me convidou para encenar. Entre quatro paredes: o espaço reservado onde os textos ganhavam vida. Aceitei. Ali, vestida de uma valentia que nunca tivera, me despi de todo o pudor e me entreguei ao jogo. Ele apenas sussurrou:
— Enfim você aprendeu a escrever com a pele.

Meu corpo ardeu de vergonha e desejo.

Desde então, a linha entre ficção e realidade se dissolveu. Mensagens começaram a aparecer nas minhas redes sociais, bilhetes anônimos em minha mesa da universidade, descrevendo cenas que ainda nem havia escrito. Sempre alguém as encenava comigo, era como se lessem meus rascunhos secretos antes de mim. Senti medo. Mas também uma excitação que jamais conhecera.

As quatro paredes se multiplicaram: meu quarto, hotéis, minha sala de aula, meu carro, até mesmo a biblioteca da universidade. Havia mais de um leitor da minha pele. E no clímax dessa confusão, compreendi: eu não precisava mais escolher entre viver ou escrever. Eu era o livro aberto. A história e a narradora.  O risco de me perder era também a promessa de, finalmente, me encontrar.