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Velas ao vento

Nada mais a fazer senão semear ventos e soprar velas de aniversário. Vira as incontáveis velinhas acessas e enfileiradinhas sobre a neve de glacê, soprando-as, em ato contínuo, quase mecanicamente, ao som agudo e chato das palmas. Vê-se cercado por aquela gente bem sua conhecida, fingindo-se receptivo com um sorriso penitente, destes que escondem os dentes. Vê a tudo e a todos de uma forma singular, como se estivesse assistindo a um filme mudo, com aquela roda de gente ir se agigantando a sua volta, oprimindo-o; aquelas mãos em batidas ritmadas e seus dedos serelepes, às centenas… indicadores opressores esses. Logo vinha lhe chegando aos ouvidos a tal musiquinha e aquela cantilena infantil lhe soara demasiadamente caricata, ademais quando vinda de um coral tão senil. Observa os rostos rotos dos amigos e seus semblantes sorridentes, alguns já bem gastos como sombras ou sobras do passado. Seriam raros os que aparentam alguma jovialidade, mas é exatamente assim uma das faces da humanidade: tristonha e banguela – sofrível. 

O bolo sendo repartido. As tais caras e bocas seguem ao seu encontro num cortejo bizarro e se multiplicando em seu pensamento ao ser interpelado e abraçado inúmeras vezes. Sem quase nada o que fazer ou mesmo lhes dizer, ao retribuir um abraço, tapinhas de afago nas costas talvez ou até rechaça-lo se acaso assim o quisesse. Apenas se cala diante das dezenas de dentaduras mastigando gengivas entremeadas de massa de bolo, tal e qual estivesse num ensaio Felliniano, pois assim é a outra face da humanidade: dentuça e risonha – risível.   

Volta e meia alguém deixa cair sobre ele partes de petiscos e goles de bebidas, lambuzando-lhe o paletó novinho em folha, coisa feita sob encomenda para a ocasião pelo “alfaiate de mão cheia” – um velho amigo, que por ali também se encontra. Este tal alfaiate seria um homenzinho rotundo, destes que se inflam pela felicidade alheia. Enchia-se de si ao posar ao lado de sua mais recente obra – eis que o aniversariante fora vencido pela criação, ganhando o terno toda a homenagem, do forro bem costurado aos retoques de pespontos na gola e lapelas. Deu-lhe um caimento quase perfeito não fosse a desconjuntura do modelo, sendo necessário um trabalhão, coisa própria de arquitetura de moda. Houve, segundo o seu autor, ajustes de contorcionista nos entremeios das costuras e adaptações pelo desalinho das imperfeições que se revelara logo na primeira prova. E, na hora da foto, o sujeito se infla novamente apequenando ainda mais o aniversariante, que somente balança a cabeça, num meio que sim meio que não, fincado naquele traje que realmente lhe conferia elegância, apesar de lhe emperrar certos movimentos pelos excessivos alinhavos, pressionando um tanto o seu respirar. Entre tosses, engasgos e pigarros, engole a tal alfinetada metafórica misturada ao recheio da empadinha, olhando para o costureiro de esguelha como se o outro estivesse um pouco acima da linha do horizonte. Há um raio neste olhar e muito mais de névoa em seu pensar. Em outros tempos aqueles olhares pareceriam invertidos. Estando ele sempre naquela posição desfavorável, praticamente relegado a um anão de Velásquez, era de se esperar que aquilo pudesse acontecer. E ele em nada reclama, fingindo uma condescendência oriental, afinal era o seu nonagésimo aniversário e nem quer mais saber de contar os anos, muito menos as mazelas, embora venha se acostumando ouvi-las de meio mundo. Com uma gentileza emprestada, segue suportando as troças e as beijocas empaçocadas de batons em suas faces cada vez mais rubras, queimando-se a quase mil graus por dentro. Quis sair dali correndo como num impulso de vontade… Ficou só com o querer, quase se quedando do assento, pois as pernas não se movem, negam-se a lhe obedecer permanecendo entrevadas e frias presas à cadeira de rodas. Resignando-se, se contenta fugir em pensamentos, ir-se pra longe dali, muito longe, mas nem tanto o suficiente pra se ver livre do incômodo voluntarioso da sociedade burguesa a fotografá-lo e filma-lo por tudo e com um ou outro e com todos. Ele só pensa em se livrar das amarras empíricas e soltar as velas ao vento, como já fizera no passado. Houve sim um tempo, e houve também um veleiro…

Numa quietude quase improvável, deixam-lhe ficar em seu canto preferido da varanda, a relembrar com paixão contida certos fatos do seu passado. São historietas banais, algumas estampadas em fotografias antigas, como se fossem coisas enfiadas em garrafas que a maré emocional lhe trouxera naquela noite. Seriam trechos compridos demais pra uma vida tão efêmera. Comparadas ao mar que tantas vezes desafiou com o seu velho barco, são apenas antigas recordações e fotos retocadas, mais ou menos parecidas com as suas próprias lembranças, hoje tão vagas e nevoentas. Coisas que vem e vão.    

Gostaria de ver chegar ali, numa visita inesperada, o seu velho amigo com o seu inseparável cão, trazendo, quem sabe a tira colo, umas daquelas amiguinhas safadas e o levariam pra navegar novamente como tantas vezes fizeram em tempos idos. Agora só as fotos como testemunhas descansam em seu colo inerte e impotente. Aquele sim fora o seu verdadeiro amigo: “um fanfarrão e beberrão dos diabos!”, o “destilador de sonhos”.   

Eram sócios no estaleiro, numa época de pura abastança. Houve um tempo em que lá na firma comemoraram com um enorme bolo de fantasia, donde lhe saltara ao colo uma coelhinha sexy e lhe cantou ao pé do ouvido, num quase sussurro: “parabéns pra você”, numa imitação clichê da festejada noite de aniversário de um antigo presidente dos EUA. A saudade lhe apertou o peito com tamanha força que o fez regurgitar algo num acesso de tosse.    

Viu o último convidado se retirando de maneira reticente e trôpega. Quis permanecer um tempo só a olhar vaga e fixamente uma imensidão de luzes piscando; as tais luzes corriam avenida beira-mar afora e seguiam rumo as outras luzes cintilantes e mais pareciam estrelas errantes e brilhantes. Zoeiras próprias de final de semana invadiam o espaçoso apartamento na Urca. Não se viam estrelas apenas luzes artificiais espalhadas naquele pedaço da cidade pareciam se perder em sua solidão marinha como fossem faróis distantes.

Que horas são? – pensou. Não soube das horas e lhe pareceu ser bem tarde. Ledo engano, pois poderia ser bem cedo pra ele, mas ainda assim seria bem mais tarde ao que lhe recomendariam médicos e fantasmas.    

Realmente não havia como ver as estrelas, pois sombras invadiram aquele céu. Uma névoa densa crispou-lhe os olhos. Era ainda o solstício outonal. O informativo do tempo na televisão já havia anunciado a chegada de uma frente fria, haveria cerração na orla. Dito e feito. Mas pouco importava as agruras do tempo, ele só queria navegar. E sonhar um sonho bom. Valia a pena correr riscos por uma boa amizade, como teria sido aquela de colecionadores de marés. Viu-se já em alto-mar comandando o leme do veleiro antigo e bom, com as suas velas estufadas ao vento, singrando mares. Ouviria alguém gritar o seu nome na confusão do barulho das ondas, avistando no convés a figura desengonçada do velho marinheiro e seu cachorro igualmente desengonçado. Estavam bêbados os três. Estavam embriagados de prazer e aventura. O nevoeiro era denso, podia-se toca-lo feito espuma, quem sabe corta-lo como rezava a lenda. Poderia até, fácil fácil, capturar luzes junto à água salgada que lhe escorria faces abaixo, pelas barbas compridas. Bem mais complicado seria tentar engarrafar brumas como já fizera um dia com o seu querer pois, pra cada escolha há sempre um preço a pagar. 

Fazia frio. Fecharam-se as cortinas da varanda. Despiram-no daquele tão precioso e desconfortável terno – camisa de força. Suas perninhas a mostra estavam crispadas e frágeis como as pernas de um bebê. Fora carregado no colo feito uma criança. O velho foi colocado em seu aconchegante leito. Embalado pelo balanço de um mar fictício dormiu feito um nenê.