Todo dia eu acordo cedo. Nem é escolha minha, mas sempre tem alguém que acende a luz antes da hora. Inferno! Tomo logo meu Mealz e Coglive. Depois tem um café ralo, com aquele pão seco e aquela margarina rançosa que eles juram ser manteiga. É margarina! Já reclamei, vou continuar reclamando e se me encherem o saco vou reclamar de novo amanhã.
De manhã aqui ninguém tem paz: é bingo, ginástica, música ruim tocada com um violão desafinado por aquele cara que sorri demais. Só participo pra não me chamarem de antissocial. Não pode deixar de participar de uma atividade que te chamam logo de rabugento, vem psicóloga querer conversar… Um saco!
Eu conversava muito com a Lírian. Era uma poeta que já foi presa política e dizia que tinha encontrado com Che Guevara. Me contava do Desmaio Públiko, dos anos da Casa de Cultura perto da Praça do Skate. Sabia que ela estava chegando pelo fedor daquela cigarrilha ou charuto que ela fumava. Um dia, simplesmente, ela não apareceu. Me disseram que não voltaria. Como assim, não voltaria? Se alguém vai embora deve ao menos avisar. Mas não, ela sumiu.
Depois foi o Nilton, poeta, contista e seresteiro. Lembro dele aqui falando de quando fez a primeira comunhão (ou seria a segunda?) numa escola de freiras da Tijuca. Me disse que perdeu a mãe ainda bebê, que a madrasta o maltratava. Cantava uma seresta desafinada, inventava trovas que misturavam tartaruga com elefante, e suas memórias da infância fazem até parecer que o passado ainda mora com a gente. E agora? Agora também sumiu. Disseram que foi “descansar”. Como se alguém aqui precisasse descansar mais do que já descansa.
Por último foi o Veríssimo. Também escritor, tímido, que só se soltava quando tocava seu saxofone. Andava cabisbaixo, já não tocava ou escrevia mais, mas sua companhia me fazia bem. Outro que foi embora sem avisar. Por que? Me diz você o porquê.
E a rotina segue igual: sopa morna, novela antiga, missa de domingo. Mas as vozes vão desaparecendo. O refeitório parece cada vez maior, as cadeiras vazias fazem eco. Eu sigo reclamando da comida, da luz acesa, do violão desafinado — mas no fundo o que queria mesmo era reclamar com eles. Não sei bem o que acontece aqui. Um dia estão, no outro não estão. Talvez exista mesmo uma seita secreta, daquelas que só convidam quem sabe guardar segredo.
Se um dia eu desaparecer vai parecer normal, como aconteceu com eles. Mas, cá entre nós, normal não é. Normal seria a gente poder se despedir. Espero que alguém também repare na minha partida. Porque a pior coisa não é ir embora — é sumir e ninguém dar falta.





Parabéns Carlos, lindo conto!
Obrigado, amigo.
Esse conto me fez transportar para o real e imaginario simultaneamente. Parabéns Sr. Nilton, poucos escritóres conseguem prender a minha atenção e me fazer passear entre o real e o imaginário. Que Deus lhe conceda mais dias entre nós e, usando a minha total ambição nesse momento dividindo essa energia com outros, para que possamos ler mais contos carregados dessa energia incrível.
Uma homenagem marcante para pessoas que fazem o mesmo em nossas vidas.
Sucesso sempre!