idosa futuro futurista

A quarta idade

Aos cento e cinquenta anos Dona Amélia foi convocada pelo Conselho Temporal.  

O mundo já não conhecia a morte natural. Desde a virada do século, a medicina havia decifrado cada falha do corpo humano e a velhice, antes condenação, tornara-se apenas uma sequência de estágios prolongados. O conceito de “Terceira Idade” foi fragmentado, sendo essa apenas a primeira faixa de um total de sete idades ou faixas temporais. Depois vinha a Quarta Idade, a Quinta Idade, a Idade da Lembrança, a Idade da Inércia, a Idade do Silêncio e enfim a Idade do Apagamento.

Amélia se sentia bem. Seu corpo permanecia intacto, sustentado por terapias regenerativas, mas dentro dela o tempo se acumulava como poeira em cômodo fechado. Chamavam aquela sociedade de “Ciclo”, onde a morte natural fora abolida e os nascimentos praticamente esquecidos. Sua existência seria reclassificada: entraria oficialmente na Quarta Idade. A mudança não era simbólica. A cada transição direitos eram revistos, trabalhos redistribuídos, afetos reorganizados. Uns poucos ascendiam ao status de sábios e continuavam sua trajetória, outros poderiam ser deslocados diretamente para a “Idade do Silêncio”, com espaços de convivência tutelada onde a vida se reduzia à contemplação e espera temporal pela “Idade do Apagamento”.

Na sala branca do Conselho, uma voz impessoal lhe dizia que já não seria medida pelo que fez, mas pelo que ainda podia servir. Aquelas palavras lhe trouxeram uma dor maior do que qualquer enfermidade perdida no passado. Sentiu-se reduzida a uma categoria, como se seu nome tivesse se dissolvido na vastidão de anos acumulados.

Olhou ao redor e percebeu que viver tanto não era continuar vivendo, mas repetir-se. O tempo, sem fim, havia se tornado inércia. E a ausência de crianças revelava a ferida maior: se nada morria, nada nascia. O mundo repousava em silêncio, como um jardim sem primavera onde a vida não se desdobrava, apenas se prolongava.

Um aperto tomou-lhe o peito. O coração, esse músculo fiel ao limite, pulsava descompassado, como se gritasse que só existe começo onde há fim. A eternidade mostrava-se um cárcere. A imortalidade, um peso.

Foi então que o chão se abriu. A sala dissolveu-se. O Conselho, as vozes, os rostos fixos, tudo se desfez em silêncio.

E em um sobressalto, Amélia despertou.

Estava em sua cama simples, com a luz da manhã sendo filtrada pela antiga cortina da janela. O corpo frágil lembrava-lhe os oitenta e cinco anos que de fato possuía. Tocou as rugas no rosto, sentiu a respiração curta, o coração ainda acelerado, e sorriu.

Compreendeu, enfim, que a morte não era inimiga, mas guardiã da vida. O ciclo da existência era uma bênção, não uma condenação. E pela primeira vez em sua vida, não teve medo do fim.