angu à baiana prato de pedreiro peão

Chico Gamela e o crime da gula

Como diz a tradição religiosa, a gula é um dos sete pecados capitais, mas acredito que também seja um crime sem perdão. Quem conhece o Chico Gamela sabe que, no caso dele, eu tenho razão.

O “crime” aconteceu no domingo passado, quando a galera se reuniu no bar do Mão Branca, nosso cozinheiro oficial, para degustar um saboroso angu à baiana. Chico foi um dos convidados. O que era para ser uma confraternização virou um banquete particular para ele. Chico bebeu uma dúzia de cracudinhas e comeu quatro pratos de angu, um atrás do outro, como se só ele estivesse contribuindo no rateio entre o grupo. Os amigos, chocados e impressionados com tanta gula, já cogitavam chamar o corpo de bombeiros para conter a fome do cidadão.

Sua hérnia umbilical parecia que ia explodir depois do angu. Mas o seu estômago, mais parecido com um baú sem fundo, ainda tinha espaço para outra rodada de comida. Para a surpresa dos amigos, Chico se levantou da mesa e, antes de subir na sua bicicleta, disse:
— Vou embora porque minha esposa está me esperando em casa para almoçar com ela uma gostosa vaca atolada.

Ao chegar em casa, mal sentou à mesa e já estava com o garfo na mão. Comeu como se não houvesse amanhã. A esposa, acostumada mas ainda incrédula, só balançava a cabeça e dizia:
— Chico, você tem uma legião de lombrigas nessa barrica!

Na segunda-feira, como se nada tivesse acontecido, foi fazer uma reforma no banheiro da casa do amigo Barbudo. Ao chegar lá, Dona Zélia, esposa do Barbudo, com as mãos na cintura, não mediu as palavras:
— Olha, Chico, aqui não tem rango para pedreiro faminto, não! Você come mais do que trator em colheita, e eu não vou passar todo o meu dia na cozinha para alimentar essa tua gula, que é um crime!

Chico, que já estava de olho na panela, com a saliva caindo pelo canto da boca, deu um sorrisinho sem graça e continuou molhando a massa de cimento.

Mas a sua felicidade maior foi quando começou a almoçar numa pensão local que servia comida self-service todos os dias. No primeiro momento a dona ficou feliz com a presença do Chico:
— Olha, que bênção, cliente novo! — disse ela entusiasmada.

Mas quando ele sentou à mesa e ela viu seu prato mais alto que o Monte Everest, não se conteve:
— Moço, aonde o senhor arruma lugar na barriga para guardar tanta comida assim?

No final da semana, a dona chorava mais que criança ao ver tanta gula. Chico comia tanto que a pensão foi a falência.

Dizem que, hoje em dia, ele anda ainda mais guloso. Por isso, foi proibida a sua entrada em todas as pensões próximas à casa do Barbudo e de Dona Zélia.

Só restou ao Chico Gamela procurar outras pensões distantes para continuar cometendo livremente o seu crime da gula em primeiro grau.