mulher servindo a mesa

Maria

Maria acordou muito bem aquele dia. Sentia-se leve e feliz. Feliz como há muito não se sentia. Apesar de tudo o que rolou durante a noite, que não lhe permitiu dormir o sono que desejava. Estava bem, disposta e sentindo-se empoderada, poderosa, invencível. Este sentimento lhe trouxe muita disposição.

Arrumou a casa. Arrumou não: faxinou, limpou cada canto, tirou a gordura dos ladrilhos e fogões. O banheiro ficou cheiroso e aconchegante, embora ela tenha se permitido o prazer de deixar as toalhas desarrumadas, fora do padrão preferido do queridinho. Deu uma geral nos guarda-roupas. Jogou fora as roupas velhas, encardidas, mofadas as quais ninguém usava mesmo. Catou as roupas sujas, lavou, estendeu na corda, esperou secar e as recolheu, dobrou uma a uma e as acondicionou nos lugares devidos. Não passou a ferro porque não era o dia dessa prática. Apesar de todo o machismo incrustado em sua pele, — que ela odiava — não lhe permitia que sua casa fosse encontrada desorganizada ou em desleixo. 

Não teve filhos. Não havia amor para isso.

Separou uma mochila velha e guardou algumas peças básicas: um moletom, três calcinhas, um ou dois sutiãs, um ou outro jeans — aqueles que você pode usar por dias sem mostrar sujeira — e a colocou em um canto estratégico. Olhou atentamente a casa em uma doída despedida, o jardim, os quadros, as cortinas que lhe custaram um hematoma ao tentar instalar, pois o marido não gostou da cor do tecido. Sentiu um pouco de nostalgia e saudades, mesmo não tendo encontrado a felicidade neste pseudo lar.

Almoçou ouvindo as músicas preferidas que nunca podia escutar. O som alto que era proibido. As luzes todas da casa acesas que ele sempre ordenava que apagasse, pois a conta poderia vir cara.

Tentou tirar um cochilo à tardinha que a ansiedade não permitiu. Levantou para preparar a janta para o queridinho. Ficou um bom e longo tempo escolhendo os temperos.

O marido chegou. De qualquer jeito — grosso, um brucutu, sem comprimentos. Nem o beijinho protocolar usado entre os casais. Sem se interessar se Maria estava bem ou tentar saber como foi seu dia. Se meteu no banheiro já reclamando que as toalhas estavam fora de ordem. Ao sair, pediu à janta que  Maria, evitando uma agressão ou algo pior, já havia servido à mesa.

Maria o serviu do mesmo jeito que sempre fazia: calada, de cabeça baixa, sem lhe olhar os olhos, o medo estampado em gestos e movimentos.

Logo após comer, e beber sua amada cerveja, ele começou a sentir-se mal, se contorcendo, reclamando de dores abdominais, expelindo uma baba espessa e branca pela boca. Maria confiante e certa de que seu plano e temperos estavam no caminho certo falou:
— Te deixarei de lembrança um beijo – amanhã – na mesa do café marcado no guardanapo com o meu melhor batom. Vingando-me depois de servir-te toda a noite à força, obrigada e seviciada como todas às vezes.

Deixarei um beijo tão salgado quanto amargo, com o gosto do veneno que te ministro no mesmíssimo tom da sua covardia, querido marido. Que não se apieda de mim ao me marcar o corpo com tuas porradas.

– Não se preocupe! Não vou gritar.

Não quero escândalos – pois sei que não gostas.

– Não vou chamar os vizinhos.

– Não vou chamar a polícia. Mas eles virão!

– Virão correndo ao sentir o fétido odor de teus restos e despojos colados ao chão.

Pegou a mochila e saiu sem destino conhecido. Livre!