Medina estava na casa dos sessenta e tantos anos. Dizia que tinha sessenta porque não lembrava a idade exata. Era muito educado, estudado, galanteador, mas chamava todas as mulheres de “minha querida”, pois não lembrava de primeira o nome de nenhuma delas.
Um dia, assim que acordou, deu um pulo da cama ao olhar para a sua companheira. Quem era aquela ali ao seu lado? Não é que ele só esqueceu o nome: ele simplesmente não sabia quem era! Sem graça, levantou e foi fazer café:
— Quem será essa dita cuja? Vou deixar ela levantar e dar pelo menos uma dica. Vai que na conversa eu me lembro.
Pois a abençoada acordou, foi tomar café e, ainda com o cabelo desgrenhado, veio logo dizendo:
— Bom dia, amor! Tem que comprar pó de café e macarrão que acabou.
— Tudo bem, minha querida. Vou me arrumar e vou ao mercado.
Já no mercado, pensou em perguntar a alguém que o conhecesse. Achou melhor não. Iam dizer que ele estava gaga e que deveria procurar um médico. Imagina perguntar o nome da própria esposa. Ou seria noiva? Ou namorada?
Voltou pra casa bem tarde. Passou no bar, bebeu sozinho e, quando chegou em casa, a esposa não estava. O dia passou e a esposa chegou. Disse que estava cansada e ia dormir mais cedo.
Na manhã seguinte, Medina acordou com outra mulher na cama. A surpresa é que essa tinha cabelo curto. A casa também era diferente: cheia de quadros com colagens e samambaias. Na decoração tinha fotos deles juntos:
— Ué — pensou — sonhei que a casa era outra. Ou foi ontem que eu sonhei?
A mulher ao seu lado abriu os olhos e disse, animada:
— Dormiu bem, benzinho? Amanhã é dia do sarau de poesia. Vou com você. Vai ser ótimo!
Medina sorriu, educado, e inventou uma desculpa qualquer pra sair de casa. No caminho até a padaria não estranhou a vizinhança. A mesma padaria, o mesmo mercado, o mesmo bar. As pessoas passavam por ele, o cumprimentavam, o chamavam pelo nome, mas ele ainda tinha medo de perguntar. Voltou logo pra casa e tinha outro homem em seu lugar:
— Tudo bom, Medina? Seu livro ficou pronto. Me ligaram lá da gráfica. Vai chegar amanhã.
E agora? Moravam os três juntos? Não lembrava de ter concordado com um trisal ou coisa assim. Era muito sério, tinha três filhas e um emprego de funcionário público. Pelo sim, pelo não, resolveu vestir o seu pijama, tomar os remédios e dormir quietinho naquela noite.
Quando acordou, bem devagar pra evitar o susto… outra mulher! Não é possível! Essa já começou a falar das filhas, de netos… Como um avô ia ter cara para encarar por aí os netos se eles soubessem que ele dorme com uma mulher diferente por dia? Todas carinhosas, educadas… Só que dessa vez resolveu agir diferente. Não foi pra rua buscar respostas. Resolveu ficar em casa e achar a explicação. Viu fotos suas com as filhas, rascunhos com a própria letra e outros sinais de que morava ali.
No mesmo dia, mais tarde, foi com a “esposa” ao tal sarau. Riu porque marcou com uma e foi com a outra. Sem perguntas. O importante era entender. Chegando lá, deu de cara com a esposa do dia anterior! E com a outra! E com as três filhas! E com o homem que morava com a segunda esposa! Calma, calma. Aos poucos entendeu que a última esposa com quem dormiu era a primeira esposa. A do segundo dia, a das samambaias, era a última ex- e a do primeiro dia era a atual esposa. Todas moram perto e se dão muito bem. Medina era que andava esquecido e trocava de casa quando tomava seus remédios à noite pra dormir. Como sabiam que ele era meio esquecido, ninguém ligava. E o marido da segunda esposa? Esse havia casado com a segunda esposa e fez a capa do seu novo livro. Aquele sarau era sua noite de autógrafos.





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