mercearia italiana

Até que a máfia os separe

Francesco sempre foi assim, diziam. Um homem educado, estimado pelos clientes, admirado pelos poucos amigos, e cortejado por algumas mulheres. Mas nunca o viram com nenhuma delas. Morador antigo de Nova Iguaçu, chegou ao bairro K11 em 1975, bem jovem, e fez muitas moças suspirarem por aquele sotaque italiano. Desde então, abriu seu negócio e vivia sua meticulosa e recatada vida.

Lorenzo era o sobrinho mais jovem. Seus pais, fartos da vida libertina que o rapaz levava, decidiram enviá-lo para trabalhar com o bem sucedido tio no Brasil. Francesco era irmão mais velho de seu pai e, considerado por todos, um “mão de ferro”. Tinham a esperança de que ele colocasse o jovem na linha.

Viver com o tio nunca foi o sonho de Lorenzo. O mesmo pensava Francesco. Eram bem diferentes um do outro. Um rapaz fanfarrão e um homem meticuloso. Nunca se atrasava para o trabalho, tomava café na xícara de louça e via as horas em seu relógio de bolso. Aliás, horário era uma das coisas sagradas para Francesco. Atrasar-se para qualquer compromisso, nem pensar!

Como bom e metódico anfitrião, ele preparou um quarto para receber o sobrinho. Em dois dias, o jovem começaria a ajudá-lo na mercearia. Lorenzo não teve tempo de pensar nem recusar. Lá estavam sua camisa, calça e avental. Se trabalhasse, teria casa e comida. Capiche? O homem era mesmo um casca grossa! Não importava que fosse filho de seu irmão caçula. Lavoro é lavoro – balbuciava o tio inúmeras vezes. Sem opção, Lorenzo colocou-se à frente do balcão e foi seguindo as regras do tio.

Aos poucos, foi percebendo que seu bem sucedido tio não faturava tanto quanto gastava. A mercearia era pequena, não possuía variedade de produtos e os clientes, sempre os mesmos. De onde vinha todo aquele dinheiro que lhe dava uma vida de conforto e regalias? Passou a observar a rotina do tio e não demorou a descobrir que, além do lavoro na mercearia, Francesco tinha negócios escusos. Tornou-se um capo de Don Corleone e mantinha aquela aparente vida tradicionalista e monótona para não levantar suspeitas. Ele saiu da Itália, mas a máfia não saiu dele.

Surpreso mas entusiasmado com a vida dupla de Francesco, Lorenzo rapidamente mudou seu sentimento pelo tio, de indiferença por apreço. Pensou estar salvo de sua rotina de lavoro e chatices. Estava certo de que seu tio sentiria orgulho de iniciá-lo na máfia. Além de tanto denaro, o rapaz imaginava uma vida de festas e mulheres. Voltar à farra era o que ele mais queria. Mal podia esperar para começar! A ideia de deixar aquela mercearia pra trás e ser um mafioso rico e famoso lhe agradou tanto que até mudou seu humor. Por mais algum tempo, fingiu não saber dos negócios do tio, esperando o momento propício para abordá-lo.

Esse momento, porém, nunca chegou. Nem a fama e riqueza, muito menos as mulheres. Francesco foi descoberto. Fugiu para o cafundó e deixou seu sobrinho na pior. Como ele já sabia, a mercearia não faturava tanto. Teve que trabalhar dobrado. Ficou furioso com seu tio, mais ainda consigo mesmo, por ter sido tão ingênuo.

Lavoro é lavoro. Capiche?