anderlecht

Andreléti

Já chegou mostrando o envelope.  

– Vó, sabe o que tem aqui dentro? – perguntou emocionado – É um contrato. Seu neto tá indo pra Bélgica. Vou jogar no Andreléti. An-dre-lé-ti, é assim  que fala, vó. Tô feliz demais. É um time pequeno, mas vou ganhar um  dinheirão, vó. Pra gente, é um dinheirão! Revertendo em real é coisa de milhão! É muito zero, vó. Muito zero mesmo!  

Ele guardou o envelope na mochila e voltou a falar:
Lembrei hoje da caneleira e do meião que a senhora comprou pra mim.  Juntou os trocados, passou roupa a semana toda, comemos angu com caldo de feijão todo dia, mas a senhora comprou. Lembra, vó? Meus irmãos reclamando, a gente não aguentava mais comer aquilo, mas a senhora comprou. Sabe quando eu vou esquecer disso? Nunca! Nunca vou esquecer tudo o que a senhora fez por mim e pelos meus irmãos. Até já fiz as contas: em dois anos de contrato, vou comprar uma casa pra cada um. Prometo pra senhora. Vai todo mundo sair do Buraco Quente!

Viu a hora no celular e voltou a falar:
– Não sei quando volto aqui. Um dia sei que volto. Vou treinar e me preparar para fazer o melhor, como a senhora sempre me ensinou. Sinto muito a sua falta. As vezes a saudade é tanta que o peito parece vai explodir. Ainda mais que a mãe sumiu de novo. Faz mais de mês que não dá notícias. Mas não se preocupe não, vó. Quando ela souber que eu tô jogando no Andreléti, vai  dar sinal de vida. E tudo bem, se ela quiser, vai ter comigo lá na Bélgica. Guarda bem o nome, vózinha, An-dre-lé-ti! An-dre-lé-ti!  

Passou a mão no retrato da vó, na lápide, e colocou de volta em seu peito. Olhou para o relógio e apressado, despediu-se:
– Vou correr, vó, se não perco o avião! Bença.  

Correu pelas campas do cemitério gritando:
Goooooollllll, do Miguelzinhoooooo, é gooooollllllll do An-dre-lé-ti!!!!