mulher sorrindo se arrumando

A bela Luísa

Luísa acordava cedo diariamente, tomava o seu café, preparava algo para o jantar enquanto seu marido se arrumava para o trabalho. Sem dar uma palavra, sempre em silêncio, colocava a roupa na corda que deixou lavando durante à noite, cuidava dos seus pets, lavava a calçada que os vizinhos faziam de “tapete higiênico”, aguava as plantas, ligava para os filhos, fazia suas leituras diárias. Assim que Fernando saia para o trabalho, rapidamente tomava um banho, colocava seu melhor vestido, meias finas, chapéu, chamava o carro de aluguel; sempre perfumada.

Alice e Joana, vizinhas antigas, ficavam intrigadas com a rotina da moça que, embora tivesse seus cinquenta anos, sua aparência era de trinta; corpo escultural, cabelos longos, muito bem penteados.

A noitinha, ao chegar em casa, lá estavam as desocupadas com aquele sorrisinhos de canto e quase de modo uníssono perguntavam:
– Boa noite, Dona Luísa. Como foi o passeio?

A mulher, sem responder uma palavra, entrava rapidamente em casa, se trocava, amarrava os cabelos em um coque desajeitado, com vassoura e pá de lixo nas mãos retomava a rotina bem cansativa, limpava as sujeiras dos cachorros no quintal, resmungando “até quando, meu Deus?”. No chão, o jornal de domingo ainda dobrado na página de cultura informava sobre os filmes da semana, o bonequinho de pé aplaudia o filme nacional em cartaz, Dona Flôr e seus dois maridos, fez a bela senhora dar um profundo suspiro enquanto a torneira, transbordando a água do balde cheio, a fez molhar as mãos em concha e lavar o rosto ainda maquiado, retirando o que restava de batom e pó de arroz.

Nina, a cadelinha, puxou a bainha do seu vestido querendo brincar. Sem efeito algum, desistiu, correndo para Fernando que já a algum tempo a observava sem nada dizer:
– Você tá aí? Não te vi chegar. Quer jantar agora?
– Não – respondeu Fernando – Vou tomar um banho primeiro. Me acompanha? Parece estar com calor.
– Já me refresquei. Vou terminar de lavar o quintal para amanhã ter que fazer tudo de novo!
– Suas saídas diárias não tem te acalmado? Parece cada vez mais irritada, distante, mal humorada, o problema sou eu? Quer conversar? Onde tem ido?
– Como sabe que tenho saído? Te falta alguma coisa?
– As vizinhas vieram me perguntar se eu não tenho ciúmes. Pois cada dia você sai de casa mais bonita.
– Ah! Não me diga que você tem?  Sabe muito bem onde vou.
– Meu amor, penso em plantar um belo jardim pra você. Será que te deixaria mais feliz?
– Quem dera fosse possível, pois teria que ser o próprio “Jardim da Saudade”.