Há tempos penso em escrever estas palavras. Há coisas que ficaram sem serem ditas, momentos que passaram sem testemunha, histórias que só foram vividas dentro de mim. E, hoje, senti que era hora de compartilhar.
Curioso como o fim de uma história pode ser, ao mesmo tempo, o início de outra. Quando seu tempo aqui terminou, o meu começou de um jeito que eu nunca havia imaginado. O que era despedida transformou-se em jornada. E ao longo desses anos, caminhei entre o vazio da sua ausência e a presença invisível que sempre esteve comigo.
No início, o futuro me parecia um imenso desconhecido — frio, imprevisível, carregado de incertezas. Mas, de alguma forma, algo maior me sussurrava que eu nunca estaria realmente sozinho. Nas noites silenciosas e nos dias mais difíceis, senti a presença de forças que não vejo, mas que caminham comigo. Talvez seja você, talvez seja algo além, talvez seja a própria vida se desenrolando com uma sabedoria que nem sempre consigo compreender.
Curioso olhar para trás e perceber o quanto mudei. Passei anos acreditando que éramos tão diferentes, tão opostos em nossas formas de ser e de enxergar o mundo. Mas a vida — essa grande escultora de destinos — me moldou, e hoje vejo traços seus impressos em mim.
Houve momentos em que te enxerguei como alguém admirável, melhor do que eu jamais poderia ser. Em outros, me vi questionando suas escolhas, seus passos, suas ausências. Mas o tempo tem o poder de trazer entendimento, e hoje, mais do que nunca, compreendo suas razões, seus silêncios, suas decisões.
Aprendi contigo, mesmo sem perceber. E quando a vida me cobrou força, resistência e sabedoria, encontrei muito do que você plantou em mim. Seus acertos foram lições que carrego com orgulho, seus erros foram aprendizados que me permitiram crescer. O que antes era sombra, hoje é luz. O que antes me inquietava, agora me guia.
Os anos passaram e, em cada momento importante da minha vida, senti sua ausência como um silêncio que falava alto. Mas um dos ensinamentos mais profundos que a vida poderia me dar — aquele que só compreendi ao vestir seu corpo para a despedida. Foi ali, no necrotério do hospital, que entendi o que é matéria e o que é espírito. O corpo que carregou sua essência se despia de sua jornada, mas o que você me ensinou sobre a eternidade das almas nunca fez tanto sentido como naquele instante. Você partiu, mas nunca deixou de estar presente.
Trabalhei, cresci, me tornei homem, como você me ensinou. E cumpri o que prometi. Cuidei da minha mãe, assim como me pediu em seu leito final. Mas talvez o maior presente que recebi nesses anos tenha sido a espiritualidade que você me passou. Não foram apenas palavras ou gestos; foram ensinamentos silenciosos, percepções sobre o invisível, sobre a força que existe além do que os olhos podem ver. Houve momentos em que me apoiei nessas lições para seguir em frente, em que confiei naquilo que você sempre acreditou: que nunca estamos sozinhos, que há algo maior nos acompanhando.
O peso da sua ausência sempre esteve comigo, mas foi aliviado pela certeza da sua presença espiritual. Nunca estive sozinho. Nossos amigos do além sempre me acompanharam, sussurrando força nos momentos mais difíceis. E quando o mundo enfrentou um dos períodos mais sombrios — na pandemia — algo dentro de mim se abriu. Minha conexão com minha família espiritual se fortaleceu e, a partir daí, um novo eu surgiu.
Me tornei escritor. Acredita? Descobri que há vozes sábias que me inspiram, que me guiam nas palavras que agora preenchem páginas, pensamentos, histórias. E, ao olhar para essa nova jornada, não posso deixar de pensar em você. Como eu desejaria que estivesse aqui para testemunhar essa transformação. Mas sei, sinto, que onde quer que esteja, acompanha meu caminho com orgulho.
Sou imensamente grato por sua presença, por tudo que me ensinou, por cada gesto que deixou marcado em mim. Apesar da sua partida precoce, você nunca deixou de estar aqui. Sua essência moldou o homem que sou, e à medida que os anos passaram, compreendi o quanto carregamos um ao outro dentro de nós.
Curioso como, às vezes, precisamos perder para verdadeiramente entender o quanto amamos. Achei que éramos tão diferentes e, ao longo dos anos, percebi que muito do que sou vem de você. Suas marcas ficaram em mim — nos pensamentos, nas atitudes, na forma como enxergo o mundo.
Hoje, mais velho do que você foi, compreendo com profundidade aquilo que antes só intuía: somos reflexos daqueles que vieram antes de nós, e esse vínculo nunca se rompe, nem com o tempo, nem com a ausência.
Porque no fim, pai, não há partida definitiva. Há continuidade, há legado, há amor que transcende a matéria e permanece.





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