obra prédio

Que safadeza!

Em um dia qualquer dos anos oitenta, eu estava numa roda de amigos bebendo umas cervas num bar em Morro Agudo, quando pedi a um dos amigos presente, o Tono, um serviço na empresa de construção civil do seu irmão.

Há mais de seis meses não pingava uma moeda no meu bolso e os boletos já me olhavam de cara feia, assim como o dono do bar, que fazia questão de expor na parede a minha foto, meu nome e o valor da dívida em um cartaz tamanho A3, escrito em cima: “O devedor do mês”.

Ao ouvir o pedido, meu amigo estufou o peito, falou como se fosse um grande empresário (mesmo estando na aba de toda a galera da mesa):— Fica tranquilo. Você vai trabalhar com a gente numa grande obra que vamos iniciar amanhã em Copacabana. Você vai realizar um sonho.

Fiquei feliz com a sua resposta positiva, mesmo não entendendo as suas palavras sobre “realizar um sonho”; eu só queria trabalhar para poder pagar minhas dívidas.

Na segunda-feira lá estava eu num prédio em Copacabana, carregando sacos de entulho pela escada (o elevador estava em manutenção), do sexto andar até à rua. O pior é que o expediente começava às oito da manhã e ia até a meia-noite. Sim, até meia-noite!

O único momento que eu parava era para almoçar. E a comida – feijão, arroz e ovos fritos – não dava nem força nem ânimo para continuar a labuta (ou seria tortura?), mas fazer o quê?

Passei quinze dias dormindo em local insalubre, entre sacos de cimento, areia e muito entulho. Quinze dias, meus amigos! Mas o que me confortava era saber que no final do mês o pagamento de todo aquele tormento estaria finalmente no meu bolso.

No dia do pagamento fiquei ansioso esperando a hora de receber o dindin. Mas o tempo passava e nada de dinheiro. Foi quando, cansado de esperar, perguntei ao meu amigo:
— Tono, quando é que eu vou receber?

Ele me olhou indignado, sério e ofendido; então disse:
— Receber? Você deveria estar feliz e agradecido por eu realizar um sonho, trazer você para conhecer Copacabana!

Fiquei tonto com aquela resposta. Que sonho? Eu só queria receber minha grana e pagar as contas!

Fui falar com o irmão dele, o empreiteiro da obra. Ele, com a maior cara de pau, respondeu a mesma ladainha:
— Meu irmão disse que o seu maior sonho era conhecer a zona sul, que o dinheiro não importava. Que você trabalharia de graça.
— De graça! Que safadeza é essa? — Respondi muito puto, com sangue nos olhos — Vocês são doidos, eu já conheço a zona sul há muito tempo. O que eu preciso é de dinheiro para pagar meus boletos!

Quinze dias longe de casa, dormindo em colchonete velho, usando saco de areia como travesseiro, para no final sair com uma mão na frente e outra atrás. Eu fiquei ali desolado, e ainda tive o desprazer de ouvir dele, antes de sair:
— Não fique triste, veja o lado bom de tudo isso. Você trabalhou em Copacabana, não é todo mundo que tem esse privilégio!

Com a coluna mais quebrada que arroz de terceira, só com umas míseras moedas no bolso, me questionava: com certeza esse não era o sonho que eu almejava, preferiria continuar muito bem acordado.