Sua cadeira de balanço rangia… “creeeek, creeeek” Com os olhos cerrados e nostálgica, Giselda se transportava ao passado… Ah, que tempo bom… Refletia, sorrindo, ao lembrar-se de Geraldo, seu marido amado, que sempre retornava para casa radiante, cheio de afeto, sempre trazia um buquê de rosas para encantá-la. Essas emoções faziam com que a cadeira de balanço de Giselda rangesse mais alto quando pensava em Geraldinho. Era assim que chamava carinhosamente seu marido falecido. Era um homem gerador de crianças lindas, ela pensava e sorria, cheia de saudades. E, no mais prazeroso pensamento, uma voz a despertou dos devaneios e a trouxe de volta à realidade. Era a voz de sua filha mais velha, que chegara sem aviso. Abriu os olhos com um semblante libertino que rapidamente se transformou em uma carranca. Questionava “de onde surgiu Ana sem aviso? E gritando desse jeito? Ela possui a chave ou não?” Murmurou, insatisfeita. Levou alguns segundos para se levantar, já carregando em seu corpo o peso de oitenta anos.
Ana continuava a chamá-la de forma insistente e, não satisfeita, ligou para o “Oba Fone” da senhora, que por alguns instantes ficou parada, sem saber o que fazer. “Quem estaria ligando?” – pensou. Esse foi o equívoco de Ana; a senhora não sabia se deveria abrir a porta ou atender o telefone. Nessa fase da vida, a pressa não é recomendável. Primeiramente, que calçar os chinelos se tornaria um jogo entre as tiras e os dedos. O trajeto até a porta seria uma corrida exaustiva. Giselda não tinha certeza do que fazer, se ia em direção à porta ou procurava o telefone. A chave estaria na porta ou não estaria? Havia dúvidas. Sua voz fraca tentava gritar o tão familiar “já vou”, mas era inútil, pois Ana continuava a gritar, deixando-a ainda mais nervosa. Para encontrar as chaves, ela precisava dos óculos que deixará na mesinha próximo à cadeira de balanço. Teria que ir até lá, e nesse ínterim, o tempo passava… Pegou os dispositivos ópticos, trêmula, colocou-os e disse para si que agora tudo estava claro. Foi até a cozinha pegar o “Oba Fone” mas, ao atender, ele parou de tocar e ela o deixou no mesmo lugar. Agora escutava outras vozes chamando. Giselda começou a sentir ansiedade, sua pressão arterial elevou-se, dirigiu-se à sala para abrir a porta e, sem perceber, deixou os óculos sobre a mesa na cozinha. Sem eles não conseguiria colocar a chave na fechadura, não poderia enxergar. Já estava suando e se sentindo enjoada, voltou à cozinha e pegou os óculos sobre a mesa. Começou a se sentir tonta e sentou-se no sofá, ofegante. Quando se levantou, com os óculos e as chaves na mão, restavam alguns passos para alcançar a porta, arrastando-se. “Boom”. A porta caiu ao chão. A força foi tanta que seus cabelos finos e brancos ficaram eriçados. Pobre Giselda, que há minutos atrás estava tão bem em seus pensamentos, agora estava parada, um farrapo. Ana, parada na porta com várias cabeças a olhá-la, exclamou: “Mamãe, por que demorou tanto, abrir a porta?”





Eu amei ter lido o seu texto no encontro, querida Emília. Parabéns .Um abraço bem abraçado e até o próximo!
Bela reflexão a respeito do cotidiano da melhor idade
Amei !
Em algum momento da vida somos Giselda.
Um abraço minha amiga ! Sempre brilhante em seus textos.