negro alforriado

Nego Dengo

Um servicinho aqui, outro ali e ele ia levando sua vida, sem maiores preocupações. Nego habilidoso, sabia resolver qualquer problema que se lhe apresentassem, fosse de marcenaria, fosse de pedreiro, pintor e até serralheria. Costumava dizer que o fundamental para o serviço sair benfeito era o capricho, o cuidado de observar e planejar bem o que vai se fazer: Primeiro resolva o problema na cabeça, depois execute com o maior capricho que puder. Era seu lema.

Morava em um barraco no morro dos pretos livres. Era um barraco bastante valorizado por se situar bem próximo a bica. Não havia água encanada e a bica era um bebedouro público utilizado pelos moradores do morro para ter acesso à água potável, lavar roupas e louças, para o banho, beber e, de quebra, saber das novidades, comentar a política e, para quem gostasse, se informar sobre a vida alheia. Solteiro, Nego Dengo morava sozinho – até porque não havia tantos pretos livres assim e, principalmente as negras, que tinham sua alforria dificultada devido ao poder de procriar e aumentar o patrimônio do Sinhô – e mantinha o barraco arrumado, limpo, cheiroso e organizado, não gostava de bagunça. Dengo andou se enrabichando com umas negras solteiras do lugar. Não é para menos: Nego Dengo possui uma compleição física forte, negro alto, quase um gigante de mãos grandes e vistosas, ombros largos que deixava as negras doidas para frequentar sua rede.

As diversas cicatrizes de chibata e queimaduras espalhadas pelo corpo, em vez de causar repulsa, aumentavam o frisson das negras por Dengo. Estas marcas significavam que Nego Dengo era da resistência, um guerreiro que não esqueceu suas origens africanas e não se curvou ao domínio do homem branco; isto, para as negras era sinal de força, de virilidade e todas queriam provar desta macheza. Na verdade, aquelas marcas foram adquiridas na juventude. Agora aos 40 anos, Nego Dengo havia encontrado na fazenda do seu sinhô, o Barão de Sagarana, o que todo negro sonha: um sinhô compreensivo e contrário aos maus-tratos, onde era bem tratado e embora ainda escravo, havia se acalmado, deixando a rebeldia de lado.  

Depois de algum tempo, o Barão de Sagarana veio a falecer e, como não possuía familiares próximos, deixou seus bens para o Estado e concedeu a carta de alforria a Nego Dengo, bem como – fato raro entre os nobres brasileiros — uma pequena soma para ele recomeçar sua vida, dinheiro este que utilizou na compra do seu barraco no morro dos pretos livres. 

Nego Dengo gostava da vida simples que levava, principalmente agora – um nego forro – e dono do seu próprio nariz. Era gostosa a liberdade, uma sensação de leveza, não ter que prestar contas a sinhô algum. O único sinhô era sua consciência e bom senso de fazer as coisas corretamente, sem agredir ou ofender ninguém. 

Claro que, mesmo livre já há algum tempo, ainda ficava o estigma – marcado a ferro e fogo em sua consciência – da escravidão. Habituara-se a baixar a cabeça ao tratar com os brancos e, mesmo tentando se reeducar, não havia modo de olhar o branco de igual para igual. Ficava a sensação de que cometia algum tipo de afronta, desrespeito. Outro sinal que não deixava se esquecer dos tempos de escravidão era a persistente mania – caso estivesse sentado – de levantar-se e procurar uma ocupação na presença de um branco. Estas marcas, estigmas, o perseguiriam até o final da vida. Não existem leis que apaguem o ardor da chibata cortando a carne, a humilhação de ter de engolir a seco o orgulho, o amor-próprio, por quê o sinhô mandou. Ter de virar o rosto para o lado enquanto o Sinhô, o homem branco, estupra seus filhos e mulheres. Estas marcas não se apagam com uma simples carta de alforria ou com a caneta de ouro da princesa. 

Ladino, Nego Dengo não se acreditava livre totalmente. Passava as noites em sono leve esperando a porta abrir-se de repente, arrombada pelo capitão do mato e seus mandados e, de uma hora para outra, se ver a ferros novamente. Ele sabia – e mantinha isto bem guardadinho em seu íntimo – que não se entregaria sem derramar sangue. Depois que provou o gosto da liberdade, todos os demais sabores ficaram em segundo plano ou nenhum sabor teria sabor real se fosse provado no canto da chibata.

Estes pensamentos sempre impediram que Dengo se juntasse às muitas pretas que passaram pelo seu catre; Dengo evitava compromissos duradouros: O medo do homem branco aparecer e levar sua amada, ou seus filhos. Melhor não. Este negócio de mulher e filhos é coisa de branco. Nunca teve família mesmo, por que estes luxos agora? Na verdade – intimamente ele já admitia para si mesmo – o que faltava agora era uma preta jeitosa para lhe fazer companhia no barraco e, com um pouquinho de sorte, uns meninos correndo por todo o terreiro, gritando, pintando o sete e desenhando o oito.