cabaré

A taxa Trump no cabaré

No coração quente de Jaguaribe, interior do Ceará, a famosa Casa de Madame Creusa estava em seu auge naquela noite de sábado. Cortinas de morim florido — tão berrantes que até míope via — balançavam preguiçosas ao som do forró animado. Lâmpadas fluorescentes, embrulhadas em papel celofane vermelho-rosado, davam ao salão um ar de Festa de São João misturada com filme dos anos 70. 

Fervia de calor! Os ventiladores giravam feito loucos, mas era como soprar vento quente de boca. Mesmo assim, ninguém queria saber de frescor — a alegria era suada mesmo. Cerveja gelada, batidas de limão e caju e as dançarinas da Dona Creusa eram os melhores ares-condicionados da noite.

Entre os frequentadores, um se destacava: paletó quadriculado, botas de cano alto, sotaque gringo e cara de quem confundia cuscuz com quinoa. James Smith, americano morador do Mato Grosso — ou melhor, um agroboy patriota que plantava soja e defendia Trump com mais fervor que muito texano. James era figurinha carimbada ali. Sempre pagava em dólar vivo, adorava exibir o inglês arranhado e, quando bebia, virava quase simpático.

Naquela noite, a surpresa era a estreia de uma dançarina nova: Soninha Furacão, uma morena carioca de parar o trânsito. Quando Soninha terminou sua performance (com direito a rebolado milimetricamente calculado), James levantou o dedo e chamou o garçom:
— Quero essa morena comigo hoje. Com tudo a que eu tiver direito! 

O garçom, já vacinado com clientes metidos, deu uma olhadinha para Soninha, que brindava em outra mesa, e respondeu com um sorriso matreiro:
— Claro, senhor. Mas com a nova Taxa Trump, o programa sai 50% mais caro.

James arregalou os olhos, quase derrubando o copo de uísque:
— Como é que é?! Que taxa é essa? 

O garçom, na maior calma:
— Como o Trump quer taxar os produtos do Brasil, Madame Creusa achou justo aplicar a reciprocidade diplomática. Aqui, americano paga extra. Política da casa.

James bufou, soltou um “que outra surpresa é essa”, e xingou até os azulejos do banheiro. Mas ninguém ali ligava. Um paraibano de chapéu de couro já dançava com uma loira de vestido colado, outro fazia malabares com um copo de cachaça e comia carne de sol como tira-gosto. O clima era de festa — menos na cabeça do gringo, que se sentia um  injustiçado da geopolítica sensual:
— Isso é discriminação! — protestou — Eu pago igual a todo mundo!
— Ou paga a taxa, ou vai dormir sozinho com saudade da sua esposa em Cuiabá — rebateu o garçom, já de saco cheio. 

James olhou para Soninha. Ela sorriu. Aquilo valeu mais que qualquer discurso. Resmungando, pagou. Com dor, mas pagou. Subiu com ela para o quarto, ainda  falando de Trump e das injustiças do mundo. Desceu duas horas depois… leve, sorridente, parecendo até ter esquecido a taxa.

E lá se foi o gringo, satisfeito, sonhando que seu presidente fanfarrão talvez não taxe o Brasil. Mas se taxar… bom, pelo menos no cabaré ele já tinha pago com gosto.