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A herança de Seu Fagundes

Era um senhor alto, frio, de semblante apresentável, passou a vida trabalhando como um advogado de sucesso. Um dia, levantou de sua cama e sentiu a idade pesando mais do que nunca. Soube:
— Está chegando minha hora.

Aprontou-se em seu escritório e começou a escrever um testamento.

Era rico, mas não tinha filhos. Nem mesmo tinha tempo para tal atividade. Decidiu que precisava de candidatos a herdeiros. Imprimiu panfletos e foi para as ruas colocando-os em postes e em paredes. Recebeu diversas ligações, mas sentia:
— Ainda não achei a pessoa certa.

Esperançoso, imprimiu uma nova leva de panfletos e foi novamente às ruas. Quando estava terminando de fazer o que precisava, escutou um choro revirado entre restos de lixo. Era de um menino de aparentemente quatro anos que o viu e pediu:
— Tem comida?

O coração do homem, que estava cansado, pulou no peito e quase saiu pela boca. Seu instinto foi perguntar para a criança se ela tinha família, o que resultou em uma resposta negativa.

O senhor, que se achava fraco, naquele momento se viu como uma possível fortaleza para o garoto e teve o desejo de adotá-lo. Entendia que era um processo difícil, mas foi uma vontade pura, sincera.

Depois de muito tempo na Justiça, conseguiu a guarda e teve o tão sonhado herdeiro.

Apesar do que era previsto, viveu por mais 25 anos e compreendeu que não foi apenas a vida de seu filho que foi salva, mas também a sua própria.