Pois foi assim. Cheguei na última década do séc. XVIII. De Angola. Navio cheio de gente. Porões cheios de mercadorias, desterros… Eu lá, aprisionado entre outros e outras. Bumbum quase de fora, corpo pronto para a venda depois daquele porão infecto, tresandado, escorbutado… Eu, ser humano feito acessório para outros seres humanos (humanos?).
Cheguei. Era um Rio de Janeiro, apostólico… De fé… De oração… De São… De Sebastião. De indígenas, de flechas, de santos trespassados (transpassado no passado) e emporradado. Assim desci da nau fundeada. Agora local arqueológico. Acho que era Gamboa (Será que de Maria, de Gamba ou de Gâmbia?). Lugar frequentado não por uma só raça e nenhuma só pessoa. Um porto primeiro. Praça de alguma coisa. Vista para o mundo inteiro… Mar salgado do doce Rio de Janeiro. Sal na pedra entalhada, apinhada, lapidada, degraus e suor na Pedra do Sal. Abaixo, na praça, ficavam os corpos desencarnados na viagem e imprestáveis, velhos aos ares novos à Saga dos Pretos Novos e todo um passado enterrado dos dias anteriores; ossos fundidos de pavor. Calcados ossos, covas, diásporas de povos… África, Américas… Desovas… Ex-ovos… Alguma viva alma formando… os resilientes espíritos sobreviventes.
Foi assim que fiquei resistente meio aos propensos sobreviventes, para trabalhar e povoar a América do Sul. Mais um escravizado.
Mercadejado, suado e calejado cheguei até um Rio Iguassú, num Porto Iguassú, local que se formou braços direito e esquerdo de minha história. Onde ainda residem minhas descendências e parte de minha memória, meio a miscigenação numa senzala preta e amarela (aborígene e afrodescendente) onde existia, perto, uma usina de açúcar e aguardente; de cana, na qual também tratei de porcos, de farinha de mandioca e plantei caroços de laranja (para dar a chupar a quem ainda viria do mar) antiescorbuto dos navios “negreiros”.
Em Iguassú, trabalho duro, muita carência entre a escravização de raças e feituras de aguardentes em botijas, botelhas, chávenas e taças… Destilando cachaças entre moinhos e… Moagem de cana… De mandioca, de aipim, abatendo porcos, vivendo de sobras e assim meio as vísceras, patas, rabos, orelhas dos porcos rejeitadas pela casa grande que fizemos o primeiro cozido, num velho caldeirão, junto ao feijão preto, pouco apreciado, também discriminado. Algumas folhas de louro para dar cheiro, couve e sobras grossas da peneiragem da farinha de mandioca, peles torradas dos porcos após o depuro da banha. Nasceu o torresmo, a feijoada, a farofa mista, a profusão de cheiros agradáveis no terreiro, o dia em festa, o canto, o batuque, a bebida, a dança, a louvação ancestral, as flores e os frutos das laranjeiras, os flertes, na presença dos pássaros Jacutingas, tudo abaixo dos narizes de alguns que ainda não sabem culturalmente se valorizar e tudo embaixo de um grande nariz bem apurado da natureza que é o monte mais alto de Tinguá.
Nossa história, como esta nossa iguaria para sempre vai vingar, sendo forma de nossas origens relembrar. Cheiro sabor delícia. Foi assim!




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