cais do valongo

Indicativos

Estava escrito num jornal antigo, diga-se que por volta de 1826, uma nota onde procurava se por um negro fujão. Suas características, enfim, todos os indicativos e do quanto por recompensa.

Duzentos anos depois, e das câmeras de vigilância, “para nossa segurança”, ninguém  escapa. Mesmo que não seja quem de fato procura-se. Suas características mais genuínas são confundidas e, como se todos fossem iguais, mais um negro preso. Apaga-se sua identidade, como se sua vida de nada valesse. 

Mas, há um lugar no Rio de Janeiro, contraditoriamente ou não, em que se reverencia o negro. Fica no Valongo. Fica onde estamos. Onde pisamos e onde os passos da história nos marcam profundamente. Não só ao chão, mas ao que vai mais fundo.

Raízes rasgam o solo e suas seivas alimentam a escuridão. Da escuridão à luz, e já transbordam em árvores que crescem e algumas dão frutos. Como em toda genealogia, uma herança. Como em toda diáspora, a resistência. E suas sementes atingem outras terras.