Malandramente, ele ia gingando para o boteco do Joca, que mais parecia um buraco sem fim. A rapaziada entrava e sumia. Quem não conhecia a birosca não imaginava o que pairava por ali. Tinha que olhar bem, ter um faro de detetive para perceber que aquela porta velha, que raspava no chão, com um pictograma nomeado “banheiro feminino”, era um caminho sem volta.
— Hoje, tô com sorte, tô sentindo — falou, em beiços miúdos, para o velho Joca. Para aqueles que estavam distraídos, que apenas passavam sem frequentar, não dava para notar que estavam envolvidos por fantasmas.
Entrou no antro. Um cheiro sufocante de cigarros, charutos baratos e outras substâncias o deixou tonto assim que entrou. Porém, depois de alguns minutos, já estava pilhado também. Mal conseguia enxergar o povo no breu. Entretanto, era a jogatina mais gostosa de que já havia participado; sempre saía com algum no bolso.
Pedrão puxou a cadeira e assentiu com a cabeça para ele sentar. Estava se sentindo o afortunado: final de ano, 13º no bolso. Seria sua noite de sorte.
As horas foram passando, o local, a cada instante, ficava mais cheio e a jogatina estava a todo vapor. Ganhava uma vez, perdia três, até que a sorte foi pro ralo. Viu seu dinheiro escorrendo como água e o coração, a cada jogada, apertava mais e mais.
Tinha que fazer alguma coisa. Mas o que iria fazer para sair do enrosco? A rapaziada da mesa estava rindo à toa e, às vezes, ele dava um sorriso amarelo. O local estava penumbroso. Sentia que o tinhoso estava rodeando e rindo dele.
Foi nesse momento que vieram à sua mente a amada, os presentes e o jantar natalino. Começou a enjoar. Era a última rodada; já não tinha um tostão furado. Deu uma balançada na cadeira, como quem ia se levantar. Entretanto, o segurança do local deu um passo à frente, intimidando-o com delicadeza.
O que fazer? Pedrão deu uma batidinha com a carta em sua aliança e sentiu um nó na garganta. Agora estava lascado. Pior que estar duro, devendo e ameaçado, era enfrentar Odilene. E, sem a aliança, que ela fez questão que usassem, seria a morte.
Horas depois, estava na rua, sem aliança, sem carteira, sem o tênis de marca e sem os óculos.
Refém do azar, cabisbaixo, olhava para a esquina onde iria se ajeitar.





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