No Tribunal do Destino, a pauta daquela tarde trazia um caso complicado: Sorte versus Azar — guarda de Osvaldo Ferreira Júnior, 52 anos, morador de Nova Iguaçu. Os dois reivindicavam exclusividade sobre o homem, cuja vida, segundo os autos, oscilava entre acontecimentos tão contraditórios que ninguém conseguia determinar a quem, de fato, ele pertencia. Sorte chegou primeiro. Bem-vestida e confiante, espalhou sobre a mesa uma pilha de documentos e sorriu para o juiz. Azar entrou logo depois. Tropeçou no próprio pé, derrubou parte dos documentos de Sorte e, antes mesmo de se sentar, desculpou-se:
— Foi sem querer.
O juiz, um sujeito cansado chamado Dr. Acaso, ajeitou os óculos e abriu a audiência:
— Muito bem. Quem começa?
Sorte levantou-se imediatamente:
— Naturalmente, eu. Excelência, o histórico fala por si — começou Sorte. — Aos doze anos, Osvaldo ganhou um rádio numa rifa da igreja. Passou de primeira num concurso público. Aos vinte e oito, conheceu a mulher que julgou ser o amor de sua vida. Se isso não comprova minha presença constante, não sei mais de nada.
Azar soltou uma risada curta:
— Presença constante? O rádio queimou na primeira semana. O cargo foi extinto dois anos depois. E o amor da vida dele ficou com o apartamento na separação. Excelência, é sempre assim. Ela fica com os aplausos e eu com os estragos.
Dr. Acaso respirou fundo:
— Prossigam.
Sorte consultou suas anotações:
— Semana passada, Osvaldo encontrou cinquenta reais na calçada.
— E gastou sessenta de Uber porque perdeu o ônibus, pois estava chovendo.
— Isso não é problema meu.
— Claro que não. Nunca é.
Sorte fechou a pasta com força:
— Então explique 2019. O pneu do carro dele furou cinco minutos antes de entrar na Dutra. Houve um engavetamento logo adiante. Se tivesse continuado…
Azar endireitou-se na cadeira:
— Um momento. O pneu furado fui eu.
— Justamente por isso ele escapou do acidente. Portanto, fui eu.
— Mas fui eu quem furou o pneu!
— E fui eu quem transformou isso em sorte!
— Excelência, ela está se apropriando do meu trabalho!
Dr. Acaso tirou os óculos e apertou os olhos:
— E o engavetamento? — Os dois se calaram.
— Melhor não entrar nesse mérito — murmurou ele.
Dr. Acaso recolocou os óculos e encarou a pasta à sua frente, grossa, contraditória, impossível de separar em duas colunas:
— Vocês percebem que estão descrevendo… a mesma vida? — Sorte e Azar se entreolharam.
O juiz permaneceu alguns segundos em silêncio. Depois, puxou o processo para perto:
— Muito bem. Tenho minha decisão. A guarda será compartilhada. Semanas pares com Sorte, semanas ímpares com Azar. Feriados, revezam.
— Isso é um absurdo! — protestou Sorte.
Azar pensou por um instante:
— Na verdade, Excelência… é exatamente assim que funciona há cinquenta e dois anos.
Dr. Acaso bateu o martelo:
— Então não vejo motivo para mudar.
Os dois recolheram suas pastas e deixaram a sala ainda discutindo. O escrivão esperou a porta se fechar:
— Excelência, e se acontecer alguma coisa boa na semana do Azar?
Dr. Acaso deu de ombros:
— É justamente por isso que ainda tenho emprego.





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