— Agnela, descobri algo horrível sobre o namorado da nossa filha.
— Como assim, Agnaldo? Ele tá traindo ela?
— Não, muito pior. Quando ela estiver aqui, vamos ter uma conversa. Esse namoro tem que acabar…
— Fala logo, homem de Deus! Tá me deixando aflita!
— Ele ganha dinheiro jogando cartas. Como alguém que faz renda com jogos de azar vai casar com a nossa filha? Bem educada, estudada… e vai casar com um golpista? Negativo.
— Ai, será que ele é viciado? Ouço tanto sobre esse pessoal que perde carro, perde casa no Tigrinho…
— Chama ela aqui. A Vera vai ter que abrir o jogo.
No dia seguinte, Vera aparece na casa dos pais, preocupada com a chamada repentina:
— Que foi, pai? Mamãe me chamou com urgência. Disse que você queria conversar comigo.
— É, Vera. Já sei como esse rapaz ganha a vida. O Valdemar, meu amigo, disse que ele ganha dinheiro jogando cartas.
— Papai! E você tem preconceito com isso?
— Tá vendo, Agnela? Ela sabe como esse rapaz ganha a vida e me chama de preconceituoso.
— Calma, Agnaldo. Conversa direito com a menina.
— Um manipulador, que vive de enganar os outros…
— Ele não engana ninguém, papai. Ele consulta os astros!
— Que astro, mas não é astro… Ele te enganou também. Vai perder tudo numa mesa de carteado.
— Que carteado, pai? Ele é astrólogo! Ele vê o futuro através dos astros. Sol, Lua, Vênus…
— O que? Você tem certeza disso?
— Tenho, pai. Miguel estudou lá fora, tem diploma na área. É muito respeitado. Tem um futuro brilhante.
— Tá vendo, Agnaldo? E você julgando o menino.
— Mas a culpa é do Valdemar! Aquele velho safado e fofoqueiro que me falou.
— Minha filha, perdoa seu pai. Ele só quer o seu bem.
— Tá bom, mamãe. Vou trazer ele aqui pra vocês conhecerem. Vocês também vão se apaixonar.
A filha sai pela porta. Aliviada, Agnela vem consolar Agnaldo:
— Tá vendo o que a gente passa pelos filhos? O rapaz mexe com astro, com planeta…
— Tu também, Agnaldo… Pega leve com o menino. Ouve primeiro em vez de julgar.
— Mas o que eu vou conversar com ele? Não sei dessa coisa de astronomia. O rapaz estuda os astros e vai querer me dar banho. Não estudo isso desde o colégio.
— Aprende a ouvir, criatura. Deixa o rapaz falar dos planetas dele.
— Tá bom, Agnela, mas o baralho eu vou esconder. Só por precaução.

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