Tudo vinha sendo pensado e preparado com carinho para o casamento já há alguns meses. Luiza era boa filha, boa aluna, leitora voraz e concluinte do ensino médio. Além do casamento iminente, sua maior preocupação era ainda não ter menstruado. Deu então de presente à prima mais nova seu exemplar de O cortiço, temendo que arte tivesse sobre a vida influência maior que o necessário.
A moça estava às vésperas de completar dezoito anos e decidiu abrir mão das comemorações com a família e as amigas, preferindo investir tempo e dinheiro na festa de casamento que, apesar de pequena, era agora a sua prioridade e seu maior objetivo. A mãe de Luiza já tinha feito simpatias e a levado ao seu médico de confiança, no entanto a poucas semanas do casamento, nem sinal do natural e vermelho costume das moças e isso já preocupava a ambas, apesar do médico enfatizar que não havia nenhum problema clínico com a nubente.
O noivo, jovem militar em inicio de carreira, passava muito tempo envolto em escalas de serviço e em neblinas que transpassavam seu paraquedas entre o céu e a necessidade de juntar o dinheiro necessário para constituir família. O relacionamento tinha pouco mais de um ano e desde o primeiro mês os preparativos para o matrimônio foram iniciados. As conversas eram poucas, assim também eram poucos os carinhos e os programas feitos juntos.
Quase num platonismo recíproco, as semanas passaram e a data do casamento chegou. Almoço em família, despedida com as amigas e a aguardada festa. Tudo como esperado, menos o início dos tão aguardados ciclos menstruais de Luiza. Tilintar de copos, música, barulho, os abraços consternados das mães, vestido bem feito e farda alinhada. Os convidados se despediram aos poucos e os recém-casados se retiraram para a lua de mel.
Seriam apenas duas noites em uma praia na costa verde, pois a escala de serviço do noivo e o final do ano letivo que a noiva ainda tinha pela frente não permitiam que o amor fosse longo e que o encontro do céu com a água clara e com os corpos jovens e entregues se demorasse.
No quarto da pousada, Luiza prontamente contou ao noivo que ainda não havia recebido do corpo o sinal de que estava pronta. A noite se estendeu como véu e a escuridão se estabeleceu como companhia. Na manhã seguinte, na ausência do casal para o café da manhã, uma funcionária foi até o quarto para saber se os moços precisavam de alguma coisa.
Sem receber resposta e depois de muita insistência ao bater na porta do quarto, a senhora utilizou a chave extra e a abriu. A imagem diante dela era uma pintura tão delicada quanto dantesca: o corpo de Luiza estava estendido na cama, pálido e frio, enquanto em contraste com o vestido branco e com o lençol limpo, uma grande mancha de sangue gritava. Os olhos fechados e as marcas roxas pelo pescoço tornavam Luíza uma ode à juventude interrompida. O marido estava longe, sentindo-se traído, se não por Luíza, que não havia sido clara por sua situação, ao menos pela natureza que não fez o seu papel a tempo. No caminho, o carro já sumia na poeira da Rio-Santos. No jardim da pousada, uma borboleta azul voava solitária e feliz.





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