A viagem no Japeri seguia tranquila, sem sobressaltos, quando o camelô, enroscado com diversos carregadores de celular no pescoço, entrou no vagão.
Tinha carregadores de diversas cores, mas os que mais se destacavam eram os de cor vermelha como sangue que, emaranhados, mais pareciam artérias expostas. Sem pressa, em passos coreografados roboticamente e fala monossilábica, olhou para os passageiros e disse baixinho:
— Olha o carregador de celular!
E aumentou a intensidade da voz:
— Olha o carregador de celular!!
E continuou mais alto:
— Olha o carregador de celular!!!
De repente para, ergue diversos carregadores conectados a um grande celular de papel machê que estava guardado na mochila.
Sai dançando e gritando por todo vagão como se estivesse comemorando um gol do seu time:
— Carregou, carregou, carregou!!!
Os passageiros se divertem com a situação e um senhor que estava dormindo acorda sobressaltado; mas, lembrando-se dos seus trinta anos de Japeri e de seus camelôs folclóricos, ri e murmura baixinho:
— Mais um artista de trem que não nos deixa dormir, mas tudo bem, é sangue bom.





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