balança dourada sangue

O peso do desprezo

A sala era um altar de precisão cirúrgica e ódio acumulado. Marina estava despida; as tiras de couro prendiam seus pulsos, cintura e tornozelos a uma cadeira de ferro, enquanto uma mordaça calava sua boca.

O silêncio era absoluto, exceto pelo som dos pingos de seu sangue. Em seu antebraço esquerdo, uma cânula de aço perfurava a veia principal, conectada a um tubo transparente que serpenteava até a balança dourada à sua frente. O mecanismo era uma obra de engenharia perversa. A sala estava totalmente escura, com uma única luz incidindo sobre os pratos da balança. O brilho do metal polido contra o vermelho profundo do sangue criava um contraste visual perturbador.

No prato direito, o tubo despejava o sangue de Marina, gota a gota, em um frasco de cristal. No outro prato, um peso de chumbo subia pouco a pouco. Quando o sangue pesasse mais que o chumbo, os bornes de cobre fechariam um curto-circuito que dispararia uma descarga elétrica fatal na cadeira. Gregório não queria apenas vê-la morrer; queria vê-la sofrer, queria possuí-la. Já que não poderia ter o seu amor, ele teria a sua substância vital.

Ele surgiu das sombras, movendo-se com uma calma que beirava a adoração. Não olhava para o rosto de Marina, mas para o fluxo vermelho que corria pelo tubo.

— Você sempre disse que eu era “vazio”, Marina. Que meus sentimentos não tinham substância. Passei anos tentando provar o meu valor, mas você me tratava com a cortesia de quem observa uma mancha na parede. Você me fez sentir o horror de ser invisível. Passei anos mendigando um átomo do seu desprezo, pois até o seu ódio seria mais quente do que esse gelo educado que você me servia. Agora, seu sangue vai nos dar o equilíbrio que você sempre negou e finalmente estaremos “conectados”. Fora do seu corpo, posso tocá-lo e venerá-lo. Vou precisar de um pouco desse sangue, um sacrifício necessário que irá prolongar o nosso fim.

Ele mergulhou as mãos no frasco de cristal, ensopando-as com aquele líquido viscoso. Com um fervor religioso, começou a “devolvê-lo”. Esfregou as palmas manchadas no rosto e nos seios de Marina, desceu até o umbigo e mergulhou os dedos rubros em sua genitália. O sangue quente, lambuzando a pele pálida, era uma marca de posse. Marina arqueou o corpo em um espasmo de repulsa absoluta.

— Não chore, meu amor. O choro acelera os batimentos. Se você ficar agitada, nosso tempo juntos acaba mais rápido. Por favor, fique calma… por nós. Vê como você finalmente está me dando a importância que eu mereço? Você está gastando cada gota do seu ser para chegar até mim. Mas olhe agora… olhe como as engrenagens não mentem. Para a balança, eu finalmente existo. O seu sangue, que nunca ferveu por mim, agora corre desesperado só porque eu a toco. Eu precisei drenar o seu orgulho para encontrar o calor que você jurava não possuir. Você fingia ser uma estátua intocável, mas agora vejo a verdade: você é carne, é sal, é esse fluxo escarlate que, gota a gota, está preenchendo o meu vazio.

Inebriado por aquele contato íntimo, ele viu o nível do sangue se aproximar da marca crítica e, num delírio de adoração e rancor, lançou-se sobre ela. Não para soltá-la, mas para habitá-la.

— Se não posso ter o seu amor em vida, eternizarei o nosso fim! 

Ele gritou, envolvendo o corpo dela, lambuzado de sangue, em um abraço desesperado. 

Seus rostos se tocaram, o sangue dela servindo de cola entre as duas peles. No instante em que o chumbo tocou o cobre, o circuito se fechou. Não houve grito, apenas o estalo seco do arco voltaico. O sangue que os unia tornou-se o condutor perfeito. A descarga atravessou o corpo de Marina, usando-a como ponte para atingir o coração de Gregório. Por um segundo eterno, eles brilharam num azul cegante, unidos pela agonia e pelo fluido metálico.

Quando o silêncio retornou, restou apenas o cheiro de ozônio e carne queimada. Os dois permaneciam fundidos na cadeira de ferro: ela, esvaziada de si; ele, finalmente preenchido pelo peso que tanto buscou.