açougue

Sangue do meu sangue

Ricardo era açougueiro. Não escolheu a profissão. Herdou o açougue Novo Império do pai, que morreu quando ele tinha dezoito anos. Não só manteve o negócio como prosperou. A grana ajudava a sustentar a poesia e o cinema, suas grandes paixões. Escrevia poemas no verso das notas fiscais. Filmava seus curtas na porta do açougue e exibia num cineclube nos fundos.

Mas com o tempo surgiram outras paixões: a esposa Cristiane e o filho Paulo. Esse já nasceu com o açougue no sangue. Desde os dez anos já tinha a barriguinha no balcão e o aventalzinho tamanho P. Logo já sabia diferenciar acém, músculo, coxão mole, coxão duro e cliente caloteiro. De novo, o açougue estava em família.

Quase todo aniversário de Paulo tinha churrasco. Aliás, qualquer comemoração na casa de Ricardo era motivo pra fazer um churrasco. Natal, reveillon, vitória do Flamengo, derrota do Flamengo… Não à toa, seus níveis de colesterol não eram muito bons.

Paulo gostava mesmo era de estudar. Ajudava o pai no açougue, assim como o pai fez com o avô, mas sempre se dedicou mais aos livros. Só comentava sobre isso com a mãe, que ouvia tudo em silêncio enquanto preparava chouriço para a janta.

Paulo cresceu dando orgulho aos pais. Amante da Biologia, prestou vestibular e passou em uma faculdade pública. Das amizades e dos estudos surgiu uma paixão: o veganismo. Nem sonhava em confessar ao pai que agora não comia mais carne. A mãe se esforçava pra esconder os hambúrgueres veganos e demais proteínas que substituíam a farta quantidade de carne que se consumia naquela casa. Um dia Ricardo ouviu o filho falar em tofu, mas achou que era alguma gíria pra dizer “tô fudido”. Mas quem tava fudido era ele. Mal suspeitava que seus planos não eram mais os planos do filho. Não reparou no leite de aveia, na linguiça vegana… Só descobriu isso depois de passar mal e ser internado às pressas. Pico de pressão, cirurgia de peito aberto e três pontes de safena. Um mês afastado dos negócios. Ao avaliar a cirurgia, o médico, visivelmente acima do peso, disse que ele deveria rever sua relação com a carne. Canalha.

Quando voltou pra casa, Ricardo sentiu um misto de orgulho do filho e repuxo dos pontos da cirurgia. O açougue funcionava bem até demais sem ele. Com muito jeito, o filho apresentou as contas, o açougue tão saudável quanto antes do pai infartar. Até que veio a revelação de que o filho não assumiria os negócios do pai porque já não concordava que as pessoas deveriam comer carne. Dizia que não comia mais nada que tivesse uma cara. Ricardo pensou em perguntar sobre peixe e frango, mas resolveu ficar quieto. Levou ainda um tempo para absorver. Lembrou que não era desejo dele também assumir o açougue. Era o mais velho de três irmãos e com a morte precoce do pai, não teve escolha. Mas já que ele pretendia ficar vivo por muito tempo, tudo bem planejar o futuro daquele açougue sem Paulo.

Mais ou menos uns dois anos depois, já com Paulo formado, Ricardo inaugurava, do outro lado da rua, uma açougue vegano junto com o filho. Passado e presente unidos pelo sangue, não do boi, mas pela vontade de empreender e ser feliz ao lado de quem se ama.