delegacia

Sexta-feira treze

Estavam todos presos à própria sorte ou ao azar? Era uma noite de sexta-feira treze, que para os céticos seria uma noite como outra qualquer. Para os supersticiosos, um dia inteiro de mau agouro. Mas, para os otimistas, que noite, que noite!

Durante o dia, nada aconteceu. Foi a pasmaceira de sempre naquela delegacia do interior. À tarde, rosquinhas, cafezinho, até bolinho e muito puxa-saquismo dos subalternos ao delegado, que por milagre ou conveniência fazia-se presente naquele dia:
— E aí, chefe? Plena sexta-feira treze… E ainda seu aniversário… Dizem que dá azar trabalhar nesse dia. Podia ter ficado em casa com a patroa, a gente segurava as pontas.
— Que azar o quê? E eu ia perder a bajulação de vocês? Me respeita, cara.

Sim, era o aniversário dele e, mais importante que isso, o dia também da visita do supervisor daquela jurisdição. Precisava fazer boa imagem. Mas o supervisor não apareceu. E então, aproveitaram para comemorar. Arriscaram até um vinhozinho e cervejinha. Porém, o bom senso falou mais alto:
— Gente, tá tudo muito bom, mas acho melhor a gente continuar essa comemoração em outro lugar mais conveniente e prudente também. Não vamos abusar da sorte. embora seja sexta, e treze. Vamos fechar a delegacia mais cedo e vamos à casa das primas.

Todos concordaram às gargalhadas. Até que de repente:
— Chefe, temos uma ocorrência!
— O quê? Justo hoje? Justo agora?

O delegado então organizou a diligência para saírem mas, pasmem, estavam todos presos. Betão os havia trancado, talvez pela força do hábito de sair e trancar. E de tão atarantado, não deixou nem uma chave reserva com seu superior ou com o plantonista do dia. O que teria acontecido?

O Betão era mais conhecido como o “Chave” ou “Chave de cadeia”, não só por guardar a tranca da delegacia, mas também por sempre se meter em encrencas. O delegado inconformado com a situação disse:
— Mais essa agora, temos que arrumar um chaveiro a essa hora. É muita desmoralização! Até que lembraram de um velho conhecido e resolveram o problema até então. 

Chegando ao local da ocorrência:
— Gente, tá tudo muito calmo por aqui. Não terá sido trote? Qual foi mesmo a reclamação?
— Foi anônima e disseram que tinha uma mulher apanhando, aos gritos, chefe.
— Demoramos tanto que a mulher já deve até ter morrido e o meliante fugido… Espere, escutei um gemido.

Resolveram estão conferir, derrubando a porta do barraco:
— Olha só, como esse mundo é pequeno! – Disse o delegado ironicamente.

O casal foi encontrado fantasiado, ele nem tanto, usava seu uniforme de carcereiro e segurava um imponente chicote. Ela, numa postura de submissão, usava apenas uma calcinha fio-dental, algemas e máscara, a qual foi retirada revelando sua identidade e provocando um silêncio absurdo e constrangedor. 

Betão e a mulher foram presos e levados para a delegacia por perturbação da ordem pública. Ela jurou que era inocente e que foi forçada, ele disse que não sabia que se tratava da esposa do delegado. 

O delegado pensativo disse:
— NUNCA MAIS VOU ESQUECER DESSA SEXTA-FEIRA TREZE
!